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14.9.09

Jogo ganho

A culpa pode ser da minha idade, já que estou me tornando cada vez mais ranzinza. De qualquer forma, para mim, o show do Beirut, que aconteceu no último dia 11 de setembro na Via Funchal, foi absolutamente medíocre. Em apresentação burocrática, um levemente embriagado Zach Condon (ou muito embriagado segundo testemunhas que estavam mais próximas do palco), estragou canções do Beirut: Postcards from Italy, por exemplo, perdeu toda a melancolia que a caracteriza, e My Night With a Prostitute in Marseille não tinha nada do tom etéreo da versão de estúdio.

E isso importa? Aparentemente não: Zach Condon entrou com o jogo ganho. Um time de garotas hippies, provavelmente atraídas pela faixa Elephant Gun, que foi enfiada na trilha sonora daquela terrível e teatral adaptação de Machado de Assis que passou na Globo há uns meses, gritava incessantemente “lindo” ao rapaz. Cada acorde inicial de cada canção era recebido com aplausos do público, que abandonou as cadeiras da Via Funchal logo na primeira canção.

Para mim, contudo, a decepção foi grande. Sou um grande fã do Beirut, já tendo falado da banda em várias ocasiões neste blog (vejam aqui e aqui, por exemplo). Mas já vi uma quantidade razoável de shows e sei, muito bem, que aquilo que aconteceu na Via Funchal não foi uma celebração musical multicultural e muito menos uma noite mágica: foi o coroamento da preguiça de um talentoso menino auto-indulgente por um bando de fanáticos.

26.3.09

Diquitas: Marissa Nadler, Yeah Yeah Yeahs e Beirut

Marissa Nadler - Little Hells: Melancolia até a medula: arranjos etéreos, voz sussurrante e letras angustiadas. Estes são os ingredientes principais do novo disco da Marissa Nadler. Canções disponíveis no My Space da artista.

Yeah Yeah Yeahs - It's a Blitz!: Nesse novo disco (chamado pela Pitchfork como disco da maturidade) os Yeah Yeah Yeahs, com uma providencial ajuda de David Andrew Sitek, do TV on the Radio, na produção, criam climáticas canções dançantes carregadas de camadas e mais camadas de sintetizadores. Belo disco que combina melodias fáceis com harmonias bem trabalhadas.




Beirut - Match of the Zapotek and Realpeople Holland: Um dos artistas mais interessantes dos últimos anos, Zach Codon, o moleque por trás do Beirut, lança um ótimo EP duplo: no primeiro disco, canções que evocam os já habituais climas do leste europeu; já no segundo disco, teclados e batidas eletrônicas tomam o poder. Esse sujeito vai longe!


La Llorona - Beirut


My Night With the Prostitute from Marseille - Beirut

1.10.08

Alternativo?

Numa grosseira aula de história do rock, poderia dizer que o indie atual tem suas origens próximas calcadas no post-punk, mais precisamente no college rock, que uniu a simplicidade do punk rock a uma temática mais "artística". Daí nasceram bandas como R.E.M., Sonic Youth, Pixies, Mission of Burma, Gang of Four etc.
Mas, depois de algum tempo, o Grunge veio, quebrou a tal barreira do mainstream e o alternativo, foi embora, apareceu a internet, o Pitchfork, os nerds venceram e se tornaram descolados. A partir daí, ninguém mais precisava se esforçar muito para ter acesso ao rock alternativo e, talvez por conseqüencia dessa "democratização", o indie transformou-se numa marca. Sobre o tema, há um ótimo texto do Simon Reynolds publicado no jornal inglês The Guardian.
Isso acabou gerando, ainda, uma aparente aceitação do rock alternativo como uma opção estética viável para uma boa vendagem de discos (claro que isso não vale para o Brasil). Um claro exemplo foi apontado pelo DG no post anterior, sobre a boy band rock'n'roll Kings of Leon.
Agora, por qual razão os fãs ficam tão possessos quando isso é apontado? Afinal, a música não continua sendo boa (eu discordo no caso do KoL), apesar de ter sido feita por um terceiro? Sim, pode ser, mas no rock, especialmente este supostamente alternativo, a honestidade tem um peso tremendo. As pessoas não consomem o estilo só pelas canções, mas por todo um pacote que vem sendo formatado desde as porralouquices de Jerry Lee e companhia.
Daí chegamos à pergunta: se querem algo honesto, por que ouvir Kings of Leon? Simples preguiça. Ouvir rock efetivamente alternativo ainda tem suas complicações. Não tanto quanto há alguns anos atrás, claro, mas ainda é mais simples conseguir gostar de Kings of Leon do que diversas ótimas bandas alternativas por aí, como Beirut e Okkervil River.
Portanto, querem gostar de Kings of Leon? Sem problemas. Só admitam que isso não fica muito distante de ouvir a boa e velha Britney Spears (de quem gosto muito).

5.10.06

Melodias distantes

A frente de uma paisagem desolada e amarelada, duas moças com traços eslavos e roupas não muito comuns. Ambas estão sentadas em um veículo totalmente desprovido das tradicionais curvas presentes nos modernos modelos ocidentais. Na placa do carro lê-se a sigla RUS, que pode ajudar a desvendar a origem da fotografia.
A imagem descrita é a capa de "Gulag Orkestar", nome do primeiro álbum do Beirut, projeto executado por um jovem norte-americano de 20 anos chamado Zach Condon e produzido por Jeremy Barnes, ex-Neutral Milk Hotel. E a arte desse disco tem muito a ver com o som que, pelas mãos do menino prodígio por trás do disco, que cuida das guitarras, trompetes, ukulelês, acordões etc, traz para o indie rock muitos elementos musicais do leste europeu , garantindo um ar "estranho" ao disco e catapultando-o para longe do rock independente atual, saturado de bandas influenciadas pelo pós-punk.



Capa de "Gulag Orkestar", primeiro álbum do Beirut.


E nessa mesma linha temos ainda o DeVotchKa, outra banda norte-americana que mescla indie rock com estilos estranhos, como musica cigana ou de mariachis mexicanos, resultando em canções altamente melancólicas e com harmonias bem originais.
Não acredito, no entanto, que alguma dessas tenha, efetivamente, ido a fundo nesses estilos musicais tão estranhos ao ocidente. Na realidade, parece mais que o rock está tão saturado de velhas formas, derivada sempre de meia dúzia de artistas consagrados há 30 ou 40 anos, que mesmo um garoto norte-americano, munido de uma conexão de Internet - a maior parte da divulgação do álbum do Beirut ocorreu antes mesmo de seu lançamento -, uma pilha de instrumentos e alguma influência minimamente excêntrica é capaz de dar ao ouvinte algo absolutamente diferente da grande maioria do que está sendo produzido por seus contemporâneos.
E até, quem sabe, essa falsa sensação de estar ouvindo canções criadas genuinamente por esses "povos" aparentemente tão distantes.

Onde ouvir:

DeVotchKa - http://www.myspace.com/devotchkamusic
Beirut - http://www.myspace.com/beruit