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31.7.09

Fim dos festivais

Tudo indica que nesse ano não teremos a mesma quantidade de festivais dos últimos. Uma pena. No passado, graças aos inúmeros festivais, o público brasileiro pôde acompanhar shows de bandas interessantíssimas, como Radiohead, Kraftwerk, The Jesus and Mary Chain, Kaiser Chiefs, Rapture, Daft Punk etc. E, o melhor: a preços razoável e em uma estrutura semelhante a de festivais ingleses e americanos.
Com o fim dos festivais, os shows acabam se deslocando para pequenas casas de shows. O resultado é que temos menos bandas por preços maiores. Só para comparar: em 2007 a Lily Allen tocou no festival Planeta Terra, no qual tivemos bandas como Devo e Datarock. Este ano ela volta ao Brasil para uma apresentação na Via Funchal cujo ingresso é duas vezes maior que o daquele festival.
Segundo um amigo que trabalha no ramo, a crise prejudica a obtenção de patrocínio, que é o que sustenta esses grandes festivais. E isso me lembra as constantes reclamações contra o fato das multinacionais terem tomado conta dos shows de música alternativa.
Bom, o desejo desses puristas foi realizado e elas saíram de cena. Pena que os festivais talvez tenham ido embora junto.

14.11.08

Shows!

Pensando friamente, ir a shows é um péssimo negócio: desconfortável, bebidas caras, risco de dividir espaço com pessoas pouco civilizadas etc. Todavia, a experiência de ver um show de rock ao vivo é insuperável. E, nesse sentido, essa foi uma ótima semana.

The Jesus & Mary Chain
Uma das atrações mais esperadas do Planeta Terra, os membros do grupo são "profissionais do rock". Não fizeram macaquices, piadinhas ou arriscaram um português sofrível. Limitaram-se a disparar belas canções barulhentas em um show que cobriu quase todos os álbuns e hits do grupo. E mostraram, ainda, que o som que faziam nos anos 80 ainda continua relevante.
Destaque para a música final, Reverence, que botou o público todo para cantar em uníssono o fatalista refrão "I wanna die".

Offspring
Para mim foi uma surpresa a escalação da banda. Tinha certeza que o grupo havia terminado em algum lugar dos anos 90. Mas até que não estava errado. O Offspring e seu gasto punk californiano são uma prova que o gênero esgotou-se lá pelo começo dos anos 90 com Green Day e cia. Ofereceram, então, hits datados para um público que não deve ter ouvido três discos na vida.
Isso sem falar na absoluta falta de educação dos fãs que abriam espaço a cotoveladas para chegar perto do palco.

Breeders
Para minha surpresa as Breeders, que concorriam com o Bloc Party no palco principal, lotaram o indie stage. Com o público na mão, as irmãs Kim e Kelley Deal alternaram hits como Cannonball, Divine Hammer e o célebre Hapiness is a Warm Gun com canções do bom último disco, Mountain Battles. Foi talvez o show mais divertido do Planeta Terra.

Kaiser Chiefs
Com meia dúzia de hits e um vocalista extremamente carismático, o grupo promoveu um belo show de encerramento do que é, atualmente, o melhor festival de música do Brasil.

R.E.M.
Era um show que não tinha motivos para dar errado: Michael Stipe é carismático, Peter Buck e Mike Mills são músicos estupendos, o último disco do grupo é muito bom e não faltam hits. Em duas horas de show, a banda passeou por todo o repertório, dando especial destaque ao ótimo Automatic For The People.
Pena que Michael Stipe seja o politicamente correto em pessoa. Exaltou Obama várias vezes, pediu ajuda para uma organização humanitária e elogiou a "beleza" paulistana...

Mallu
Por favor, abandone o blues e assuma de vez o country.

25.8.08

Mudhoney

Não bastassem as já confirmadas apresentações dos fodões do Mudhoney nos dias 11 e 12 de outubro no Clash, em Sampa, eles ainda conseguiram encaixar um show de graça - repito, DE GRAÇA - numa festa universitária em São Carlos.

Detalhes aqui, ó: http://festivalcontato.blogspot.com/

Se existisse um estilo alternativo-roots...

3.10.05

The gift of sound and vision

Não eram só cinco sujeitos tocando canções pop, daqueles que empolgam por duas horas e só – não que isso já não seja o suficiente para um show ser algo fenomenal. O que o Mercury Rev proporcionou ao fechar a última noite do Curitiba Rock Festival está além disso. Algo que não pode ser digerido em duas horas a frente de um palco.
O primeiro detalhe que diferenciou a apresentação das demais foi um telão armado atrás da banda, no qual foram projetadas diversas imagens e citações durante todo o espetáculo, no melhor estilo do Pink Floyd da era do Syd Barrett ou os Velvets quanto eram os queridinhos de Andy Warhol. Antes da banda subir ao palco foram projetadas diversas capas de álbuns, livros e filmes que, de uma forma ou de outra, influenciaram a banda: estavam lá desde o jazz vanguardista de Coltrane, Coleman e Sun Ra até o pós-punk dos Replacements, Hüsker Dü e Galaxie 500, passando ainda por Bob Dylan, Leonard Cohen, Kerouac, Chemical Brothers etc.
Terminadas as projeções iniciais a banda sobe ao palco, com o vocalista Donahue empunhando meia garrafa de vinho tinto. Abrem o show com “Secret for a Song” a primeira faixa do último álbum, “The Secret Migration”. Pelo resto do concerto o grupo iria tocar praticamente todas as faixas do disco, com destaque para a climática “My Love” e a empolgante “Vermillion”.


Palco do show do Mercury Rev: sincronia entre sons e imagens.


Um dos pontos altos do show foi a execução de “Tonite It Shows”: o guitarrista Grasshoper, que trocou um pouco sua Stratocaster por uma gaita de boca, e o baixista, que trocou seu instrumento por um piano elétrico, criaram o cenário perfeito para que o performático Jonathan Donahue cantasse e gesticulasse os belos versos da canção. E algo semelhante ocorreu no número final, “The Dark is Rising”, com o lunático líder da banda comandando explosões sonoras de uma orquestra imaginária.
E durante todo o espetáculo as projeções continuaram. Citações de artistas, filósofos e até mesmo o Mestre Yoda ou do E.T. eram alternadas com palavras de ordem, algumas beirando perigosamente a auto-ajuda, além de pedaços de filmes e imagens aleatórias. Tudo era tão bem costurado que, apesar de chegarem perto de merecerem o título de pedantes ou de hippies, a dignidade foi mantida intacta.
No conjunto da obra, a climática música da banda, que consegui reproduzir a grandiosidade das gravações de estúdio, acabava se integrando perfeitamente às imagens e à performance de Donahue, ficando claro que tudo não era apenas um show de rock.

30.9.05

O barulhento som do amor

Dentre as bandas que abriram a última noite do Curitiba Rock Festival, poucos destaques. Os Móveis Coloniais de Acajú animaram parte do público com seus metais e a empolgação de seus membros. Los Diaños também atraíram atenção com seu punk movido a contra-baixo acústico, trumpete e guitarra distorcida. E o Ultramen, por ter um bom número de fãs, também chamou atenção, apesar da banda parecer um Rappa mal ajambrado.
De resto, sobraram bandas ruins, anacrônicas ou simplesmente chatas. Patife Band mostrou que o envolvimento com a “vanguarda paulista” não serviu para nada, já que tocaram um punk rock da pior espécie. A hypada Karine Alexandrino parecia um Cansei de Ser Sexy piorado, cantarolando tortamente sobre bases eletrônicas sem graça. Um ou outro grupo que não citei deve ter sido tão pavoroso que me fez ir beber cerveja ou olhar a chuva ao invés de ficar perto do palco.
Dessas apresentações tirei as seguintes conclusões: ou as bandas brasileiras são realmente ruins, sem nenhuma inventividade, ou não foram convidadas as bandas certas, que foram preteridas diante dos queridinhos de sempre. Pouco importa qual seja a verdade, pois os dois cenários não são nada animadores.
Mas o melhor ainda estava por vir, e a noite começou mesmo quando os Raveonettes, herdeiros diretos da mistura de "barulho branco" com belas melodias criada pelo Jesus and Mary Chain, entraram no palco.


Sharin Foo, grande destaque da apresentação dos Raveonettes


A beldade Sharin Foo, vestida como uma ginasial americana em um baile da primavera, poderia fazer o público acreditar que todos estavam nos anos 50, não fossem as três guitarras - uma delas capitaneada pela outra metada de banda, o sinistro Sune Rose Wagner - que, quando não estavam disparando riffs a lá rockabilly, apitavam e enchiam o Curtiba MasterHall de feedback.
A base da apresentação foi o último disco da banda, “Pretty in Black”, que fez o público dançar em canções como a empolgante “That Great Love Sound”, o single “Love in Trashcan”, e “My Boyfriend is Back”, espetacular cover das Angels, grupo vocal dos anos 50. Mas os hits antigos não foram esquecidos, em especial “The Attack of the Ghost Riders”, um dos pontos altos do show.
Por fim, o carisma da banda merece destaque especial. Sharin Foo falou com o público o tempo todo, e parecia estar surpresa com a recepção que tiveram do público brasileiro. Ao final da apresentação fez questão de descer próximo ao público e sair apertando as mãos do pessoal.
Um amigo disse que quem nunca viu o Jesus and Mary Chain pôde se contentar com os Raveonettes. E, de fato, apesar da banda não plagiar os irmãos Reid, a microfonia desses escoceses continua tão viva quanto em 1986.

27.9.05

Slap you on the face and enjoy the show!



Inesquecível. Isso é só um pouco do que pode ser falado da primeira (e provavelmente única) apresentação do Weezer no Brasil. Obviamente por se tratar de uma banda cheia de mistérios, o show foi precedido de um sem-número de boatos e rumores, que caíram por terra quando aqueles quatro americanos empolgados subiram ao palco.

Primeiro, um desagravo à organização do show. Se esses caras de Curitiba pretendem manter o sucesso do festival deveriam pensar seriamente em se profissionalizar. A venda de ingressos foi um desrespeito, a escalação das bandas deixou a desejar, o local do show mudou na última hora e o horário de início em São Paulo era 15 hrs e, para surpresa, em Curitiba era 19 hrs (tudo bem que deu tempo pra tomar uma cerveja ao som de Teodoro e Sampaio num buteco sertanejo – aliás, nunca vi uma cidade com tão poucos butecos por quarteirão!!).

Mas, vamos ao que interessa. Antes do Weezer tocaram algumas bandas independentes brasileiras, das mais variadas regiões do país. As duas de maior destaque foram Biônica (SP) e Acabou La Tequila (RJ).

A primeira por seu tradicional show ridículo, feito por músicas ridículas e pela postura ridícula da moça “MTV-Na Base”. Como uma banda tão ruim, em todos os aspectos, pode ser cogitada para tocar nesse e em outros festivais?

Mistérios à parte, o Acabou La Tequila entrou na seqüência com um show memorável. Tinha curiosidade de ver ao vivo a banda idolatrada por Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. E, de fato, os caras mandam muito bem. Dá pra notar claramente a influência deles no primeiro disco dos Hermanos. A banda é praticamente uma constelação do mundo indie: Kassin é o produtor do Los Hermanos, Nervoso é um dos mais elogiados em sua carreira solo e Gabriel Thomaz, o gênio por trás do Little Quail and The Mad Birds e do Autoramas. Puro gás!

Aí veio o Weezer. Os caras já entraram botando fogo no público com a seqüência matadora de “My name is Jonas”, “Tired of Sex” e “Don´t let go", causando catarse coletiva nos ávidos fanáticos que se estapeavam na platéia.

A empolgação da banda era absurda e a qualidade do show impressionava. Rivers realmente parece um nerdinho dos filmes da sessão da tarde, com um paletó “meu-vô-tinha” e uma cara de tonto idêntica a do Samuel Rosa. Mesmo assim se mostrou um grande condutor de platéias. Destaque também para Brian Bell com backing-vocals e vocais potentes e infalíveis e uma guitarra pesadíssima.

Depois de “This is Such a Pitty” a banda, após divertir o público, começa inacreditavelmente a tocar “Big Me”, do Foo Fighters. O público vem a baixo, acompanhando toda a letra da música. Não era o Killers alardeado pelo Lúcio Ribeiro , mas valeu pela raridade do momento.

Após “Buddy Holly e “Photograph”, essa com Rivers Cuomo na bateria e Pat Wilson no vocal e guitarra, no melhor estilo Nirvana em 93, uma pequena pausa e Rivers surge no meio da platéia VIP e toca “Island in the sun”, ovacionado pelo público, num belo momento acústico que lembrou Jack White em Manaus.

Voltando ao palco, a banda, para delírio da platéia, resolve recrutar algum fanático para tocar com eles a próxima música. O sortudo escolhido por Brian Bell mal sabia o que estava fazendo no palco, tamanha a surpresa. E a banda toca “Undone” com direito a performances de Rivers e Brian Bell junto com o garoto (que quase meteu o violão na cara do Rivers).

O show terminou potente com “Surf Wax America”, com o público emocionado e na certeza de que aquilo ali não se repetiria tão cedo.

Ao fim do show uma coisa chamou a atenção de todos: eles não tocaram NADA do Maladroit. Quem conhece a banda sabe que o esquisitão do Rivers não gosta nem um pouco do disco e isso ficou bem claro em Curitiba. Mas, tudo bem, não fez falta alguma.
PS: No site da banda eles dizem que esse show está entre os maiores de todos os tempos. Com certeza não é um exagero.

30.8.05

Eu estava certo

Geralmente tento escrever essas colunas do modo mais impessoal possível. É claro que é besteira dizer que dá para ser totalmente objetivo, mas com algum esforço é possível chegar perto.
Bom, desta vez eu quero ser pessoal só para afirmar: “eu estava certo”.
Há mais de um ano, eu e mais dois amigos nos enfiamos num evento comemorativo do Dia da Mulher. Na verdade o local era um encontro de riot grrrls (com muitos “r”), recheado de bandas com um pé no punk e outro em discursos feministas retrógrados. Só a última banda não bradou contra a dominação dos machos. Ao invés disso, meia dúzia de meninas se espremeram no palco e mandaram pouco mais de 20 minutos de músicas rápidas e sujas, com as duas vocalistas gritando e se empurrando o show todo.
Era o começo do hype ao redor do Cansei de Ser Sexy e minha defesa em favor da banda, uma das poucas da cena indie que eu achava que tinha futuro.
Mais de um ano depois assisti outro show delas. A essa altura, elas já haviam tocado no Tim Festival e estavam escaladas para o Campari Rock. Ao invés de barulheira e um teclado vagabundo daquele meu primeiro, bases programadas que tornam o show quase um playback. Ou, como disse um amigo, um circo.



A performance continuava parecida, mas, por incrível que pareça, as coisas soavam mais amadoras ainda. Lovefoxxx tentava brincar de fazer malabarismos com o microfone, mas não conseguia. Suas piadinhas eram ruins e suas dancinhas parecem ter saído de algum programa de auditório dos anos 80. Nenhuma banda de electro precisa de três guitarras fazendo os mesmos power chords. É notório que o único músico da banda é o Adriano ex-Butcher.
Mas, havia pouco daquela pose indie que tanto empesteia a maior parte das bandas do gênero. A coisa estava mais perto do Latino do que do Placebo. Mais perto do Réu e Condenado do que dos Forgotten Boys.
Termina o show e uma amiga que nunca deve ter ouvido as palavras indie ou hype na vida diz que também queria “cansar de ser sexy”.
Hype? Sim, sem dúvidas. Importa? Bom, já ouvi o Ludov sendo tocado até na rodoviário do Tietê. O Daniel Belleza jogou no Rock Gol. E outros tantos casos. Até agora não foram muito longe: não chamaram atenção de ninguém que convive em locais onde há uma real concorrência na cena musical, não conseguiram usar pose, internet, ironia, amadorismo e coisas afins de um jeito inteligente.
E nem irão. Só hype não leva ninguém muito longe.
E acredito que vou estar certo dessa vez também.

P.S.: escrevo isso antes das pretensões do CSS darem certo de verdade – coisas como lançamento de discos e turnê internacional. Senão, seria fácil demais falar “eu estava certo”.

17.8.05

Brothers and sisters, are you ready?

Acredito que quase todas as pessoas que compareceram na noite de sábado do Campari Rock esperavam ver no DKT/MC5 um simples tributo ao passado de uma das mais influentes bandas de rock da história, já que shows de “lendas vivas” costumam ser cercados mais pela importância histórica e pelos hits do que pela esperança de uma apresentação memorável.
Contudo, o DKT/MC5 frustrou todos que foram à Fábrica da Lapa com essa expectativa. Apesar do palco ter sido dominado por quatro senhores (os três membros remanescentes do MC5, mais o guitarrista convidado Marshall Crenshaw), os primeiros segundos de “Ramblin’ Rose” mostraram que o grupo não ia se limitar a um simples tributo àquele MC5 que terminou no início dos anos 70.


Wayne Kramer em apresentação com o DKT/MC5


Durante todo o espetáculo, Wayne Kramer não parou de disparar riff seguido de riff sobre o público, empunhando sua guitarra como uma das armas que ele devia usar para assaltar casas durante os anos 70. Apesar de seu comportado traje branco, do fato de ter puxado um corinho com o público durante “Rama Lama Fa Fa Fa”, ou de ter ensaiado uma esdrúxula dancinha digna do grupo “É o Tcham”, Kramer manteve uma postura rocker que poucos, mas muito poucos mesmo, conseguem ter.
E o outro protagonista da noite foi o grande Mark Arm, cuja performance ensandecida lembrava a dos tempos áureos de Iggy Pop, também contemporâneo do MC5. Faltou somente andar sobre o público durante a última música do show, quando era arrastado de um lado pelo outro – sem soltar o microfone nem parar de cantar – pelo público.
No fim do espetáculo, o mais longo do Campari Rock, ficou a nítida impressão que aqueles quatro senhores – Mark Arm ainda não está tão velho para receber esse título – agarraram-se com muita dignidade e vontade ao que talvez seja uma das últimas oportunidades deles animarem alguns filhos da mãe e lembrarem que, apesar da ferrugem, o rock não morre tão cedo.