Mostrando postagens com marcador Bob Dylan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bob Dylan. Mostrar todas as postagens

20.8.08

Brasil

"Caetano canta com a mesma voz como há 30 anos. De óculos de leitura e cabelos brancos, o músico dá uma aula de rock com seu power trio, formado ainda por Marcelo Callado na bateria e Riardo Dias Gomes no baixo e teclado. O músicos soavam ora como os solos de microfonia de Jimi Hendrix, ora como as marcações rítmicas do grupo King Crimson, sem deixar de soar muito moderno." (Via UOL Música)

Não ouvi - e nem pretendo – o novo disco do Caetano Veloso. Creio que a música pop é uma das poucas formas de arte que permite uma erudição rápida e, de posse dessa erudição conquistada por vários anos perdendo boa parte do meu tempo com música, me dou ao direito de ser preconceituoso com um disco de rock do Caetano.
Qualquer um sabe que Caetano mudou os rumos da MPB nos anos 60. Mas alguém realmente acha que pode me convencer que um sujeito que nunca teve uma sonoridade realmente rock’n’roll vai, depois dos 60 anos, virar um roqueiro?
Se nem o Neil Young está mais agüentando o tranco...



Eu tentei, vocês viram: defendi a Mallu Magalhães como pude. Mas desisti ontem quando vi que a garota, mesmo sem discos lançados, foi indicada a vários prêmios no VMB 2008. É uma empulhação, lógico. Concordaria com um modesto Artista Revelação. Mas, Artista do Ano? Com base em quê? E aquela indicação para Show do Ano então? Tá, a menina faz shows bonitinhos, e aquela (aparência) de ingenuidade é algo espetacular. Mas, meio cedo essa indicação para alguém que fez, sei lá, 20 shows...
Contudo, não me surpreendo com isso. A MTV tem essa tradição de tentar empurrar artistas güela abaixo do público. Cachorro Grande não sai da programação há anos. O tal do Daniel Belleza até hoje participa do Rock Gol, mesmo não tendo vendido mais de 35 cópias de qualquer disco. Isso sem falar no Rock Rocket...
Mas deviam aprender que o público não é idiota e que ninguém cai tão facilmente em um conto do vigário. O tal do Daniel Belleza é a prova viva disso...



João Gilberto está (em troca de R$ 2 milhões) gentilmente tocando novamente no Brasil após 5 anos. Todos estão elogiando o show. O que me espanta é a tolerância que têm em relação à chatice, aos faniquitos e aos atrasos colossais de João Gilberto.
Por muito menos, um sujeito como Bob Dylan seria massacrado pela mídia brasileira.

12.5.08

Os intocáveis


Inexplicavelmente alguns artistas são imunes a críticas negativas. E, convenhamos, isso é muito chato e extremamente contraproducente. Discos patéticos, atitudes constrangedoras e discursos contraditórios. Nada disso é suficiente para que lhes lancem um tomatinho que seja. Em alguns casos parece que o próprio artista se joga numa furada pra testar e comprovar essa imunidade, ou até pra dar uma zoada nos críticos e fãs (o que é fantástico). Eis aqui meu TOP 4 dos artistas intocáveis:


Bob Dylan – O mito da nova juventude intelectualizada brasileira. Ele não era tão adorado assim nem na época dos seus pais, mas estamos no Brasil, né meo. Até quando fez música chata de igreja foi considerado gênio. E uma dica: renegue os discos mais famosos e os clássicos que foram gravados por outras bandas. Nunca fale que você gosta de "Knockin´ on Heaven´s Door". Nem que "All Along The Watchtower" é melhor com o Hendrix. Você será linchado.


Beatles – Se for fazer uma lista de melhores discos de todos os tempos, coloque pelos menos 5 deles entre os dez primeiros. Mesmo que você tenha 13 anos e nunca tenha escutado algo além de Yesterday e Twist and Shout tocados por seu tio em um churrasco. Fale que não há banda que entenda mais de harmonia, melodia e experimentação musical, mesmo que não saiba de cabeça todas as notas musicais. Acha o "Álbum Branco" meio chato e repetitivo? NUNCA repita isso.


Radiohead – Desista de achar algum disco deles chato. Isso nunca vai acontecer. Se não gostar, guarde esse sentimento ignóbil. A dupla "Kid A" e "Amnesiac" são marcos do pós-rock. Mas... O que é pós-rock? Sim, você deve ter um déficit de cultura musical muito grande para não entender este termo e esses discos. Não se preocupe, apenas repita comigo: tudo o que eles lançarem de hoje em diante é genial (e pós-rock).


Chico Buarque – Se quiser fazer amigos pseudo-intelectuais, nunca fale mal dele. Principalmente em algum centro acadêmico de universidade pública. Isso pode ser fatal. Foi criticado apenas uma vez na vida, por homens casados e não integrantes de "movimentos de esquerda", ao ser pego bolinando a mulher do próximo em uma praia carioca. Só. Não é permitido falar nem que ele canta mal. Há sempre uma desculpa pronta para rebater essa crítica. "Mas, ele colocou uma música na novela das oito, apesar de jurar a vida inteira que isso seria como mandar a filha pra zona!". Cante "Metamorfose Ambulante" pra quem disser isso e diga que o grande artista é aquele que se reinventa a cada momento, ou não.

4.9.06

Bob Dylan, Girl Talk e os tempos modernos

Há alguns poucos anos um produtor que atende pelo nome artístico de Freelance Hellraiser estourou na Internet com “Stroke of a Genie-us”, um inusitado mash-up (espécie de “mistura” entre músicas, criando uma nova canção) dos Strokes com Christina Aguilera. Desde então a moda - que já estava sendo propagada pelo 2Many DJs - pegou e vários outros mash ups foram feitos.

No entanto, passada a novidade, não há como negar que a fórmula é um tanto quanto enjoativa. Algumas vezes é, inclusive, absolutamente angustiante ouvir, por exemplo, John Lennon cantando “A Day in the Life” por cima da harmonia de “Karma Police”, quando você quer ouvir uma ou outra canção se desenvolver.

Contudo, um lançamento recente mudou um pouco as coisas. “Night Ripper”, do Girl Talk, também é uma coleção de mash-ups. No entanto, ao invés de promover o simples encontro entre uns poucos artistas, o jovem de 24 anos por trás do projeto utilizou, no disco, cerca de 200 samples (pedacinhos de música), todos costurados com uma precisão invejável, lembrando mais o belo “Since I Left You”, dos Avalaches, do que qualquer outro mash-up tradicional. Dá pra ficar horas ouvindo as dançantes faixas do disco e procurando citações musicais que vão de Pixies a Nirvana, passando por Black Eye Peas, Pavement, Elton John etc.

Além de tudo, a enorme gama de referências é costurada com uma inteligência ímpar. Basta ouvir a faixa “Peak Out” e constatar um irônico dueto entre “We Want Some Pussy”, do 2 Live Crew, e “Silly Love Songs”, de Paul McCartney.




DJ Gregg Gillis, o sujeito por trás do Girl Talk

Talvez o álbum seja uma das mais evidentes provas de que o pop vive da auto-referência, com o novo surgindo de uma reciclagem do velho e tudo mais. Aí que entra Bob Dylan, mostrando que não é preciso a modernidade de um mash-up para essa óbvia constatação.

Em seu novo disco, ironicamente batizado de “Modern Times”, o compositor revisita a gênese do rock’n’roll, em um disco permeado de blues, rockabilly, toques jazzísticos e seu tradicional folk. E desde o início de sua carreia Bob Dylan sempre deixou claro que a modernidade surge, justamente, dessa visita ao passado e a utilização de suas referências – basta saber que muitas de suas composições são recriações de canções tradicionais.

Fica evidente então, seja com o “tradicionalismo” de um Bob Dylan, seja com os recursos modernos de um Girl Talk, que a música pop não precisa se desvencilhar se seu passado enquanto estiver nas mãos de sujeitos capazes.

BÔNUS:

Faça aqui o download de "Modern Times", o novo disco de Bob Dylan.

25.2.05

A arte das canções miseráveis (parte I)

De uns tempos para cá ouvi falar muito do Bright Eyes. Li em alguma revista que o carinha tinha umas letras estilo Bob Dylan, e que as músicas lembravam um folk bacana. Bom, consegui o novo disco do sujeito, chamado “I’m Wide Awake; It’s Morning” e logo na primeira faixa que escolhi para ouvir (“First Day of My Life”) notei que não havia muito conteúdo no disco.
Cheguei então à conclusão que o tal do Bright Eyes faz parte daquele rol enorme de bandas melancólicas que se proliferaram depois que o Radiohead lançou o “The Bends”, como Travis, Coldplay, Keane, Camera Obscura etc. A maior parte delas usa a fórmula segura de melodias grudentas, guitarras pesadas aqui e acolá, pianinhos bonitinhos em arranjos simplistas e letras metidas a tristonhas. Como diria o Homer Simpson, naquele clássico episódio com os Pumpkins e o Sonic Youth, é muito fácil deixar a molecada deprimida...
Posso até estar ficando chato demais, mas acho que a maioria do que essas bandas faz é simplesmente dissolver o que seus antecessores fizeram. Para notar isso é só ouvir o “The Bends” e perceber que o Thom Yorke e seus amigos sabem como fazer uma coisa realmente melancólica e com uma evidente qualidade. As letras não se apegam em imagens simplistas, como fez a “First Day of Life” que citei ali em cima (“I remember the time you drove all night/Just to meet me in the morning/And I thought it was strange, you said everything changed/You felt as if you'd just woke up”), nem em arranjos previsíveis - apesar que, ouvindo hoje o “The Bends”, é difícil notar toda a novidade, já que a influencia do disco já foi bem absorvida.
wilco

Mas, para a reclamação não ficar em conversa de velho, cito aqui um disco de 2004 que é realmente melancólico: “A Ghost is Born”, do Wilco. O disco abre com um pianinho baixíssimo e o sujeito murmurando, a beira da cama de uma mulher chorando, algo sobre ir embora. Quando você espera que isso vá emendar em um refrão grudento, surgem guitarras pesadíssimas capitaneadas pelo líder da banda, Jeff Tweedy e seu novo parceiro Jim O’Rourke (que também toca no Sonic Youth). Daí para o fim, é só barulho e riffs. Mas até mesmo as canções mais pop do disco, como a acústica “Muzzels of Bees”, traz doses de melancolia de qualidade (“And dogs laugh, some say they're barking/I don't think they're mean/Some people get so frightened/Of the fences in between”).
E, para quem quiser conhecer os caras que realmente entendem do assunto, deixo algumas sugestões: “Berlin” do Lou Reed, cheio de violência doméstica e crianças órfãs; “Small Change” do Tom Waits, que cheira à álcool do começo ao fim; “Third/Sister Lovers” do Big Star, carregado de ressentimento; “Songs of Love and Hate” do Leonard Cohen, com suas imagens que vão de uma avalanche soterrando a alma a um Papai-Noel com uma faca de aço inoxidável; e, por fim, o clássico “Blood on the Tracks”, de Bob Dylan, parido dolorosamente após o rompimento de seu casamento.
Divirtam-se.

3.12.04

"Whaaat would you do..."



Enfim, de novo! A TV Cultura volta a passar, desde o início, a série mais fantástica de todos os tempos. O que intriga é o porquê dela causar tanta aceitação do público (não falo só por mim), mesmo tendo sido produzida há mais de dez anos e ter o enredo passado no fim dos anos 60 e por todo os anos 70.

Não dá para negar a identificação da maioria das pessoas que assistem com o personagem principal, Kevin Arnold. É o típico adolescente "loser": zoado pelo irmão mais velho, dominador na relação com os amigos e fracassado nas tentativas amorosas. Um pobre coitado que pensa 15 vezes antes de fazer uma besteira.

Na verdade, o narrador (ele mais velho) se comporta como uma consciência arrependida, um olhar crítico severo sobre as reações impulsivas e fracassadas que o "loser" tinha quando moleque. E tudo num tom de "Caralho, como eu era idiota" durante os episódios e "Putz! Q saudade que eu tenho daquilo", nos finais filosóficos (aliás, sempre ensinadores).

O incrível é que a série é um retrato absurdamente real dos terríveis conflitos internos vividos naquela fase da vida, sendo indiferente a época, país ou condição social do personagem . Ao mesmo tempo em que ressalta a beleza e a alienação sincera de um moleque que só queria se dar bem, seja com a Winnie Cooper, no 21 contra o Paul ou nas zoações do Wayne, no meio de um mundo em que rolava o movimento hippie, a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã.

Outro fator de identificação eu acredito que seja a trilha sonora, lotada de grandes clássicos do rock da época, ouvindo-se desde Jimi Hendrix (que num episódio a irmã "hippie" definie como "o maior guitarrista do mundo" ao respoder à mãe que mandava ela desligar aquele barulho), Bob Dylan, Beatles, Beach Boys, Joan Baez, The Monkees, The Doors, Cream, Johnny Cash, Neil Young e uma porrada de outros grandes. Por sinal, dá pra conferir no site http://whiplash.net/cinemaanosincriveis.html a trilha sonora de cada episódio (fantástico isso!).

Pelo fato de ser uma representação da visão de um menino sobre as coisas, eu sinceramente não sei qual a aceitação entre o público feminino (questão a ser resolvida nos comentários) bem como em relação aqueles que não conhecem a fantástica trilha sonora (eu, sem conhecer porra nenhuma das bandas, já curtia quando era criança).
Mas, realmente, os roteiristas merecem todas as honras por terem ido tão fundo na análise psicológica e por terem colorido as "enrascadas" do nosso "loser" com uma trilha sonora do caralho! Dá até vontade de ter vivido naquela época...
Então não percam amiguinhos: todo dia, às 18:30 na TV Cultura.

PS: que o idiota era lerdo com a Winnie Cooper, ele era hein? Puta que pariu!

29.11.04

Deus!

Após tantos anos, não restam mais dúvidas: o rock costuma arregimentar pessoas realmente miseráveis. Tanto que suicídios, vício em drogas, alcoolismo e comportamentos violentos são extremamente comuns no meio. E, onde há esse tipo de sentimento, hora mais, hora menos, os sujeitos acabam tentando buscar algo mais "transcendental". E não há nada que represente melhor essa busca do que a religião.
Por isso, apesar de todo o senso comum apontar o caráter demoníaco do rock, este estilo acabou sendo responsável por algumas das mais profundas canções "religiosas" já compostas, superando, em muito, aquelas cantadas em bancos de Igrejas por padres desafinados, tias-avós e coroinhas.
O caso mais notório talvez seja o de Bob Dylan que, na virada dos anos 70 para os anos 80, lançou uma seqüência de álbuns realmente religiosos. Apesar da Bíblia ter servido, anteriormente, como inspiração para Dylan, as canções desta época trataram o tema de forma bem mais explícita, fato que afastou muitos fãs do cantor e o aproximou da comunidade religiosa. Mesmo com este fanatismo, Dylan acertou a mão em algumas canções, com destaque para "Every Grain of Sand", cuja inspiração no Evangelho o ajudou a criar versos como: "I gaze into the doorway of temptation's angry flame/And every time I pass that way I always hear my name/Then onward in my journey I come to understand/That every hair is numbered like every grain of sand.

And from your lips she drew the Hallelujah

O canadense Leonard Cohen também deu sua contribuição ao compor "Hallelujah", misturando cultura judaica, busca pela fé e boas doses de amor mundano. Tempos depois a canção foi regravada por Jeff Buckley, que, inspirado em uma versão de John Cale, trocou a sonoridade oitentista do original, carregado de teclados, por sua guitarra minimalista e sua voz passional. O resultado foi tão bom que Buckley deve ter garantido seu terreninho nos céus.
Mas o caso curioso mais curioso talvez seja o de Lou Reed, que, no terceiro álbum do Velvet Underground, gravou uma canção chamada... "Jesus"! Nessa belíssima balada, o compositor limita-se a pedir ajuda a Jesus para encontrar seu lugar no mundo. Assim, em meio à canções que falavam de travestis, das ruas de Nova York, de drogas pesadas e de violência, o compositor consegue encaixar, com perfeição, uma cançãozinha acústica cujo coro se limita a um "Jeeeesuss, Jeeeesuss..." quase choroso.
O que pode demonstrar que, no fundo, as drogas, a auto-destruição, a música ou um Deus são apenas caminhos para encontrar algum tipo de paz. Mas isto já é filosofia demais para um post só.