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21.10.09

Jornada ao passado

Parece que a molecada só conhece bandas surgidas a partir da década de 80. O pós punk de Joy Division, Gang of Four e Sonic Youth é o marco zero. Pioneiros são totalmente ignorados.
Neste sentido, soa genial a atitude de alguns artistas de regravar albuns clássicos inteiros.
Os Flaming Lips prometem gravar o Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, todinho. Como devem ter lido na Wikipedia, o Pink Floyd é aquela banda careta dos anos 70, odiada pelos punks. Mas não dá pra ignorar: alguns experimentos do Pink Floyd foram muito influentes. Radiohead que o diga! Enquanto a tal gravação completa não sai, dá pra ouvir uma prévia: o grupo tocou Eclipse, a última faixa do disco, no Morning Becomes Ecletic, da KCRW.
O Beck também está dando sua contribuição através do Record Club. O projeto, que reúne figurões como Nigel Godrich, Devendra Banhart e Binki Shapiro, já regravou o seminal The Velvet Underground and Nico e agora está fazendo o mesmo com The Songs of Leonard Cohen, álbum que deixa as letras (e o nível de depressão) de um Ian Curtis no chão...

21.4.09

Literatura

Morreu no último dia 19 de abril o escritor J.G. Ballard, autor de obras como Crash. Mas quem acompanha um pouco da história da música pop sabe que o autor exerceu uma enorme influência em diversas bandas. Ian Curtis, líder do Joy Division, deve muito de sua sombria visão de mundo a este autor.
E este é só um dos exemplos da influência da literatura na música. Creio eu que esta mistura remonte aos anos 60, quando o pessoal do folk começou a intelectualizar a música pop, politizando-a. Aí veio o Bob Dylan que, influenciado por autores beat como Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac, passou a escrever letras cheias de simbolismo e surrealismo.
Mas creio que o ápice dessa intelectualização tenha sido mesmo o pós-punk inaugurado por sujeitos letrados como Mark E. Smith, do Fall, Howard Devoto, dos Buzzcocks e do Magazine, e pelo próprio Ian Curtis. Essas bandas sempre tiveram objetivos estéticos que iam além do rock'n'roll: queriam que as canções fossem pequenas obras de arte expressionistas, impressionistas, realistas etc.
Todavia, as melhores bandas que beberam dessa fonte não se esqueceram que estavam fazendo música pop. O Joy Division, mesmo em uma canção como Interzone (lugar citado na obra "Almoço Nu", de Burroughs) ou Atrocity Exhibition (título de uma obra de J.G. Ballard), são relativamente pops apesar do clima claustrofóbicos e as letras soturnas ("You'll see the horrors of a faraway place,/Meet the architects of law face to face./See mass murder on a scale you've never seen,/And all the ones who try hard to succeed").
Deixam todos então uma importante lição: é muito importante para a música pop buscar inspiração em outras formas de arte. Mas não dá para levar a coisa a sério a ponto do sujeito esquecer que está fazendo... música pop!