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12.9.09

Freshing News

Jornalistas musicais são seres engraçados. Na tentativa de soar sempre novos, sempre trazendo novidades, sempre “repercutindo” a notícia velha ou fazendo estardalhaço com fatos minúsculos, parecem ter uma necessidade contínua de inventar, inclusive nos termos usados em seus textos. Quase como gourmets das manchetes musicais.

Thiago Ney, jornalista da Folha e co-responsável pelo blog Ilustrada no Pop, é um exemplo interessante disso. Dia desses, incomodado, resolvi entender o que ele pretende dizer com o termo “refrescante”, que usa para adjetivar desde bandas novas, livros de velhos autores e até conversas telefônicas.

Veja alguns exemplos:

“ ‘Lust for Life’, música da dupla americana Girls, é um sopro refrescante na música pop; disco está para sair” – Coluna Conexão Pop de 09/09/09

“É refrescante dar de cara com um texto como esse de Nick Hornby” – na mesma coluna

“Há poucos dias, Murphy falou por telefone a esta coluna, e é sempre refrescante conversar com alguém que foge do lugar-comum” – Coluna Conexão Pop de 01/10/08

“E, ainda assim, a dupla Cool Kids soa como novidade refrescante” – Coluna Conexão Pop de 04/04/2008

“A refrescante Santogold” – Ilustrada no Pop de 18/03/2008

“Lançado no final de 2006, ‘Seres Verdes ao Redor’ é dos mais refrescantes e originais discos recentes do pop brasileiro” – Folha de São Paulo de 08/06/2007

“Além da música, um refrescante pop de tempero reggae e ska, Allen é conhecida pela língua afiada” – Folha Online de 08/12/2006


Que diabos ele quer dizer com “refrescante”? Jamais ouvi alguém proferir esse termo bizarro quando escuta uma música boa. “Nossa cara, que refrescante!”. Você consegue imaginar isso? Procure no dicionário: há tantos significados possíveis para o verbo "refrescar" que o adjetivo pode ser usado para designar praticamente qualquer coisa.

Trabalhando um pouco minha vasta memória, lembrei-me do único ser humano que usa essa palavra em seu trabalho: o chef inglês Jamie Oliver, figura fácil do canal GNT. Apesar do programa ser bacana, ele tem o irritante hábito de se referir a todas as ervas que não brotam na Inglaterra como sendo “refrescantes temperos tropicais”. Ou seja, o termo é usado para dar aquele ar charmoso a uma coisa que nem ele nem os conterrâneos dele conhecem direito e que, no país de origem, é só... só mais uma coisa.

Taí. Thiago Ney é o Jamie Oliver do jornalismo musical brasileiro.

31.7.09

Fim dos festivais

Tudo indica que nesse ano não teremos a mesma quantidade de festivais dos últimos. Uma pena. No passado, graças aos inúmeros festivais, o público brasileiro pôde acompanhar shows de bandas interessantíssimas, como Radiohead, Kraftwerk, The Jesus and Mary Chain, Kaiser Chiefs, Rapture, Daft Punk etc. E, o melhor: a preços razoável e em uma estrutura semelhante a de festivais ingleses e americanos.
Com o fim dos festivais, os shows acabam se deslocando para pequenas casas de shows. O resultado é que temos menos bandas por preços maiores. Só para comparar: em 2007 a Lily Allen tocou no festival Planeta Terra, no qual tivemos bandas como Devo e Datarock. Este ano ela volta ao Brasil para uma apresentação na Via Funchal cujo ingresso é duas vezes maior que o daquele festival.
Segundo um amigo que trabalha no ramo, a crise prejudica a obtenção de patrocínio, que é o que sustenta esses grandes festivais. E isso me lembra as constantes reclamações contra o fato das multinacionais terem tomado conta dos shows de música alternativa.
Bom, o desejo desses puristas foi realizado e elas saíram de cena. Pena que os festivais talvez tenham ido embora junto.

14.5.09

MM´s


Poderia postar algo aqui falando da mais nova banda inglesa que une batidas dos anos 80 com elementos rítmicos da Papua-Nova Guiné. Como também seria possível fazer um tratado ginecológico sobre as fotos da Rihanna pelada. Ou sobre o mais recente topless de Amy Whinehouse, que está (surpresa) envolvida com drogas novamente. Quem sabe discorrer sobre uma inglesa velha e horrorosa que canta bem. É, afinal, esse tipo de texto que vem povoando as redações de jornais e blogs por aí.

Tenho costume de freqüentar esses sites quase que diariamente, nacionais e estrangeiros. O barulhinho de grilo no mato que venho escutando recentemente é algo que assombra. Assim como a infinita capacidade de escrever sobre o nada e criar factóides, novos fenômenos e resenhar discos sob encomenda.

Quem não se recorda do recentíssimo e constrangedor estardalhaço feito no lançamento dos discos do Oasis, do Franz Ferdinand ou do (argh!) U2. Os três, repito, os três foram belos fracassos de venda. Se muito começaram bem nas paradas e foram melancolicamente despencando até caírem no esquecimento. O público não comprou a oferta viciada da crítica.

Os jornalistas e a indústria insistem em pensar que o consumidor de hoje é pura e simplesmente um filho daquele tonto facilmente manipulável que existiu até o final da década de 90. Aquele imbecil que, como eu, saía correndo atrás do disco 5 estrelas da edição do mês da Bizz, sem saber que o jornalista era o melhor amigo do vocalista da banda.

A molecada destes dias ouve o disco antes de ler a resenha ou a matéria de capa de grandes sites. E escolhe aquilo que quer realmente ouvir como quem aperta tomates no final da feira. A fantástica fábrica de fenômenos ainda está de portas abertas, mas tem cada vez menos acessos.

Não. Não vou falar da Mallu M.....

17.4.09

Sintomático

Capa da NME deste mês:

Capa da NME de novembro de 1989:



A situação é crítica. Alguém tem uma banda nova aí pra me indicar? Acho que vou ouvir o "fantástico" disco novo do U2. Get on your boots, boots, boots...

Stone Roses 20 anos capa NME never mind the pollocks

11.4.09

O messias


Há quinze anos Kurt Cobain morreu. E há quinze anos a música pop espera uma nova redenção. Há sempre um novo Kurt Cobain quase aparecendo quando alguma nova banda toca de forma simples, barulhenta e sincera. Mas estamos enganados: é sempre um falso messias.
Assim, aproveito esse feriado de Páscoa para indagar se devemos ter alguma esperança de salvação do rock. Para mim a resposta é simples: não, não há mais espaço para um novo Kurt Cobain.
Em primeiro lugar, o que foi o Nirvana? Ou, mais propriamente, o que foi o grunge? Vejo o movimento como a mais bem sucedida integração do genuíno rock'n'roll ao mainstream. Foi quando o punk rock realmente chegou às massas. Afinal, não só os iniciados ouviam Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e companhia naquela nostálgica primeira metade dos anos 90. Todos ouviam essas bandas. Todos.
E as pessoas esperam que esse novo messias roqueiro consiga o mesmo feito; munido de guitarra e sinceridade, deverá ser capaz de chutar qualquer cria do Timbaland da Billboard e abrir novamente caminho para uma canalhada de outras bandas semelhantes infestarem as paradas de sucesso.
Mas os tempos são outros. O Nirvana e seus amigos já fizeram isso e, consequentemente, tornaram esse tipo de atitude banal. E a história da música pop mostra que esses movimentos não se repetem. É um erro pensar que o grunge repetiu o punk simplesmente porque se apropriou de suas premissas básicas, assim como é um erro esperar que algum movimento repita os passos do grunge.
Além disso tudo, o principal legado do grunge, que é essa mensagem de sinceridade e simplicidade, não foi esquecida. É, aliás, uma das principais características dos roqueiros que estão nas paradas hoje em dia. Em certa medida não temos nenhuma cria do Van Halen ou do Guns'n'Roses fazendo sucesso. Há sim bandas cantando sobre sentimentos com canções derivadas do punk. Se alguém duvida da sinceridade deles, é outro problema. Nunca saberemos quem é sincero e quem não é, então o importante é parecer sincero. E a molecada parece acreditar nesse pessoal...
Assim, talvez o melhor seja esperar que o legado do pós-punk, que é o da eterna reinvenção e busca por influências externas, venha salvar o rock'n'roll.
Como disse Thurston Moore, do Sonic Youth, "punk é para caretas; ultrapasse-o."

17.12.08

O triste canto de Ney

Thiago Ney não agüentou. Há tempos criticado pela baixa qualidade e fraca repercussão de suas matérias e colunas da Folha de São Paulo, seu canto do cisne às avessas foi entoado constrangedoramente nesta semana em seu blog no site Folha Online. Nos comemorativos dos 50 anos do caderno Ilustrada, para o qual escreve, brotaram várias farpas para o atual modelo editorial e os jornalistas responsáveis pelos textos. Gente de peso falando, críticos e criticados. Todos unânimes em apontar o amesquinhamento do grande papel que sempre foi exercido pelo caderno. Vestindo confortavelmente a carapuça, Ney garganteou-se em ironias, fofocas e empáfia para tentar salvar sua carreira. Nada pior!

Como uma criança que deda os colegas ao tomar uma bronca da mãe depois da reunião da escola, Ney metralhou um a um seus detratores antes de, descoladamente, assistir a suas novas bandas preferidas em um clube adolescente de São Paulo. Justo duas daquelas bandas que ninguém ouve e do nada são hypadas, uma das maiores críticas feitas ao jornalista e ao caderno. Um tanto quanto constrangedor para um rapaz de 30 e poucos.

Herdando o vácuo deixado pelo geek Lúcio Ribeiro, Ney não soube ter a mesma destreza e influência sobre os mais jovens como tinha o antigo chefe do pedaço. Naquela época ele realmente se destacava com suas boas matérias, provavelmente sob a batuta editorial do Poploader. Ao chegarem os holofotes, Ney tremeu e sucumbiu a uma mera gangorra de amigos eletrônicos e indies, ao mundinho alternativo de São Paulo e sua patotinha fechada. Ainda, pecou por se fechar nas virtudes de seus gostos exclusivamente pessoais e dormiu na praia enquanto vários e vários fenômenos surgiram (e foram espertamente aproveitados por seu antigo chefe). Subiu nas tamancas e se esqueceu que escreve no maior caderno de cultura do país.

10.9.08

Fanáticos

Vejam esse vídeo.



A briga em questão, crítico contra artista, é bem velha. Afinal, é até compreensível que alguém se sinta ofendido ao ler uma série de, hmmm, "ofensas estéticas" em uma mídia de grande repercussão.
Sempre me espantou, todavia, o ódio de consumidores de arte pelos críticos. Eu, pessoalmente, nunca tive muita coisa contra essa classe. Para mim, o crítico é simplesmente alguém que sistematiza e contextualiza uma conversa de bar sobre uma música, um filme, um livro etc. Isso sem falar, claro, nas infinitas dicas dadas por sujeitos que, geralmente, têm maior acesso à cultura. No meu caso foi graças ao Álvaro Pereira Jr. que descobri Belle & Sebastian, uma de minhas bandas preferidas, numa época em que a internet era precária e ninguém do meu meio ouvia música alternativa.
Mas a verdade, ao menos em relação à música pop, é a seguinte: como já disse o também crítico Simon Reynolds em seu "Beijar o Céu" (Conrad), gostar do gênero demanda um certo fanatismo, certa crença de que aquela música específica, escrita por um bêbado qualquer, tem um significado pessoal.
Assim, fica óbvio que qualquer ofensa a um artista, que parta de algum velhote metido a sabichão, é tomada como uma ofensa pessoal.
É a regra desse ingênuo jogo.

15.8.08

Admirável mundo novo

Qualquer um que leia esse blog, siga nossas dicas musicais e tenha mais de 20 anos sabe como o modo de consumir música mudou drasticamente com a internet e, principalmente, a popularização da banda larga. Foi-se o tempo em que era dificílimo conseguir um CD importado e baixar uma única música digital. Agora, em alguns minutos, temos um álbum inteiro em nossos MP3 players.
E, desde o começo, as gravadoras estão esperneando. Afinal, as vendas de CDs realmente tendem a cair drasticamente neste cenário. Claro que a coisa não é tão apocalíptica assim, já que, só em 2006, a indústria vendeu US$ 2 bilhões em música digital, cifra que cresce a cada ano.
Mas, o que importa aqui é que salientar a modificação causada por esse novo cenário na forma de consumo de música, fenômeno que Chris Anderson, editor da Wired, chamou de The Long Tail.
De modo sintético, poderíamos dizer que a tal Cauda Longa se refere ao fato de que, no mundo virtual, boa parte dos custos envolvidos na produção, distribuição e alocação de produtos para entretenimento são baixíssimos. Além disso, esses custos para um hit ou para um produto menos popular são os mesmos: não há mais a preocupação do lojista em não conseguir vender aquele disco do Pavement, o qual poderia estar ocupando o lugar na prateleira de um da Ivete Sangalo. E, com tudo isso ao alcance de um clique, essa massa de produtos que não são hits passaram a constituir uma faixa de mercado maior que a dos hits. É a tal Longa Cauda do gráfico abaixo.


Lá fora essa é uma discussão já meio velha. Mas, aqui no Brasil, será que isso tem algum sentido? Em primeiro lugar, devo deixar de lado o mercado popular, já que nem todos têm acesso a internet ou podem operacionalizar a compra de material virtual. Sobra, então, uma certa “elite” que, de certa maneira, é o alvo do que escrevemos. E, para este público, creio que essa popularização de pequenos nichos funcionaria muito bem. Qualquer um que freqüenta shows de rock alternativo sabe que qualquer barraquinha com CDs das bandas consegue sempre vender alguns discos...
E o interesse desse público em música mais underground talvez impulsionasse a venda virtual de discos fora de catálogo de grandes gravadoras, os quais não encontrariam público que justificasse o lançamento em CD. Afinal, quantas cópias seriam vendidas de um disco de psicodelia brasileira dos anos 60? Definitivamente, os custos de lançamento não seriam cobertos.
Mas, infelizmente, estamos no terceiro mundo. E as idéias do mundo civilizado demoram um pouco para chegar nessas bandas....

20.6.08

A anta de cada um

PRA OUVIR ENQUANTO LÊ:





Lula é a anta de Mainardi. O Cansei de Ser Sexy é a minha. Pretensioso, né? Pela milésima vez cheguei à conclusão de que a banda, desde o início, não passa de um grande negócio muito bem arquitetado. É claro que os gatos pingados que gostam deles ficam mordidos com quem fala isso (alguem falou em teoria da conspiração?). Tem gente que acredita até hoje que o Sex Pistols era um grupo punk-libertário-anarquista. Enfim...



Ligue os pontos. Entre no maior portal de notícias brasileiro. Uma singela busca é suficiente para notar que eles têm mais notícias que The Strokes, The Libertines, White Stripes e quase o mesmo que Arctic Monkeys e Franz Ferdinand!!! Ok, pra ir mais longe, ganham da Rihanna, do 50 Cent, do Timbaland, da Björk... e por aí vai. É uma brincadeira divertida. Tentei a Pitty, Charlie Brown Jr. e Cachorro Grande também. E eles foram imbatíveis. Observo que no site do Estadão, por exemplo, os resultados foram bem diferentes. Deve ser diferença no "foco".


Aí você pega uma matéria no "Le Monde" que diz que eles "são os 'enfants terribles' da cena musical maluca de São Paulo". Eu não consigo imaginar essa cena musical maluca de São Paulo. Se fosse gaúcha ou goiana, vá lá. O Observer diz que lideram uma nova frente da world music (!!!!! – tipo, Gilberto Gil?) e que você precisa ouvi-los. Tudo bem. O pessoal lá de fora analisa mais pelo aspecto "The Sexual Life of the Savages", é o jeito deles. Mas, aqui no Brasil-il um blogueiro de sucesso diz que uma das músicas novas parece ter sido feita pelos BEATLES (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!). Caro leitor, mentalize aquele comercial da Wallita Juicer: "incrível, fantástico, imperdível, fenomenal". Ou até o mestre Ciro Bottini: "compre, compre, compre!". Não parece?


E é muito raro ver alguma matéria analisando criticamente a música em si. É sempre a roupa, a performance, o namorado da vocalista, a banda brasileira e coisas assim., "superafim"... Sempre "na brodagem". Uma coisa entre Capricho e Contigo.


Méritos e gostos musicais à parte, juro que não consigo achar tudo isso natural e meramente uma consequência do som deles. Can you?

2.6.08

Mallu e as feijoadas...

Costumo odiar artistas lambidos em excesso pela imprensa ou parte dela. Eu odeio Mallu Magalhães. Não por ela ou pelas músicas em si. Não consigo suportar o furdúncio que se faz sobre algo que não representa nada. Pior, o exagero de alguns críticos cria um efeito de público inacreditável, de tão sem sentido. O “efeito Mallu” expõe a mediocridade de parte de nossa imprensa musical e, principalmente, a acefalia da molecada, que consome qualquer coisa que tenha um “selo de qualidade” reconhecido. O mais engraçado é que eles se auto-intitulam independentes.

Uma coisa é resenhar um disco, levantar a bola de um artista ou até dar um espaço um pouco maior para algo em que se aposta. Mas qual o interesse em se dar capa de jornal, comercial, programa de televisão, textos semanais ininterruptos? Isso se deu com o CSS, com o Bonde do Rolê e Mallu é só a bola da vez. “Ah, mas os críticos europeus adoram eles e isso demonstra que eles são bons mesmo”. Isso só demonstra ainda mais a mediocridade das pessoas que se deixam levar por esse negócio que chamam de hype. Essa maldita palavra conseguiu transformar até Björk em símbolo máximo do refinamento musical, dá pra ter noção disso?

Sinceramente: você gosta de feijoada em lata? Não conheço ninguém que goste. Mas vende pra caramba, né? Pronta pra comer e não dá trabalho nem de procurar a receita. O que importa é encher a barriga, não é mesmo? Todos ficam contentes. O dono da fábrica, o cara que te vende isso como algo bom e você, um idiota que aceita que te enfiem qualquer coisa.

Como diria um antigo personagem da “Praça é Nossa”, vamo faze uma apostinha? The next big thing é essa aqui ó: http://www.youtube.com/watch?v=g6CZOq-Wl-w . Antigo hino dos shows do Wonkavision.

Olha como eu sou genial! O John Peel brasileiro!

Mallu Magalhães o novo-Nirvana? O que dizer da Soko então? Parecido, né?

Aaaah vaaahh!



14.5.08

Elogio à intolerância

Em matéria de música pop - ou até arte como um todo - acho que um certo tipo de intolerância é essencial, já que determinados ouvintes tendem a tolerar qualquer porcaria lançada pelo seu nicho favorito.
Um primeiro exemplo já foi dado pelo Gaiotto na coluna passada, que é o da tolerância aos "grandes ícones" da música.
Outra classe comum é o que eu chamo de "tolerantes com os queridinhos da Pitchfork", que, para quem não sabe, é aquele ótimo site norte-americano que revolucionou a crítica musical na internet. Mas, alguém realmente gosta "Bros" do Panda Bear, escolhida por eles a terceira melhor canção de 2007, só para ficar em um exemplo?
Por fim, destaco os tolerantes com o rock alternativo brasileiro. É aquele pessoal que ouve e gosta de uma banda só porque ela é, hmm, brasileira! Pouco importa se ela é uma porcaria, se em 15 minutos na internet você arruma uma gringa melhor ou se elas nunca seriam chamadas para tocar em bar nenhum na Inglaterra. Pois, para mim, banda boa, em qualquer parte do mundo, tem que competir, justamente, com o resto do mundo.
Por isso, convoco todos à intolerância e ao ódio às porcarias!

12.5.08

Os intocáveis


Inexplicavelmente alguns artistas são imunes a críticas negativas. E, convenhamos, isso é muito chato e extremamente contraproducente. Discos patéticos, atitudes constrangedoras e discursos contraditórios. Nada disso é suficiente para que lhes lancem um tomatinho que seja. Em alguns casos parece que o próprio artista se joga numa furada pra testar e comprovar essa imunidade, ou até pra dar uma zoada nos críticos e fãs (o que é fantástico). Eis aqui meu TOP 4 dos artistas intocáveis:


Bob Dylan – O mito da nova juventude intelectualizada brasileira. Ele não era tão adorado assim nem na época dos seus pais, mas estamos no Brasil, né meo. Até quando fez música chata de igreja foi considerado gênio. E uma dica: renegue os discos mais famosos e os clássicos que foram gravados por outras bandas. Nunca fale que você gosta de "Knockin´ on Heaven´s Door". Nem que "All Along The Watchtower" é melhor com o Hendrix. Você será linchado.


Beatles – Se for fazer uma lista de melhores discos de todos os tempos, coloque pelos menos 5 deles entre os dez primeiros. Mesmo que você tenha 13 anos e nunca tenha escutado algo além de Yesterday e Twist and Shout tocados por seu tio em um churrasco. Fale que não há banda que entenda mais de harmonia, melodia e experimentação musical, mesmo que não saiba de cabeça todas as notas musicais. Acha o "Álbum Branco" meio chato e repetitivo? NUNCA repita isso.


Radiohead – Desista de achar algum disco deles chato. Isso nunca vai acontecer. Se não gostar, guarde esse sentimento ignóbil. A dupla "Kid A" e "Amnesiac" são marcos do pós-rock. Mas... O que é pós-rock? Sim, você deve ter um déficit de cultura musical muito grande para não entender este termo e esses discos. Não se preocupe, apenas repita comigo: tudo o que eles lançarem de hoje em diante é genial (e pós-rock).


Chico Buarque – Se quiser fazer amigos pseudo-intelectuais, nunca fale mal dele. Principalmente em algum centro acadêmico de universidade pública. Isso pode ser fatal. Foi criticado apenas uma vez na vida, por homens casados e não integrantes de "movimentos de esquerda", ao ser pego bolinando a mulher do próximo em uma praia carioca. Só. Não é permitido falar nem que ele canta mal. Há sempre uma desculpa pronta para rebater essa crítica. "Mas, ele colocou uma música na novela das oito, apesar de jurar a vida inteira que isso seria como mandar a filha pra zona!". Cante "Metamorfose Ambulante" pra quem disser isso e diga que o grande artista é aquele que se reinventa a cada momento, ou não.