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21.10.09

Jornada ao passado

Parece que a molecada só conhece bandas surgidas a partir da década de 80. O pós punk de Joy Division, Gang of Four e Sonic Youth é o marco zero. Pioneiros são totalmente ignorados.
Neste sentido, soa genial a atitude de alguns artistas de regravar albuns clássicos inteiros.
Os Flaming Lips prometem gravar o Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, todinho. Como devem ter lido na Wikipedia, o Pink Floyd é aquela banda careta dos anos 70, odiada pelos punks. Mas não dá pra ignorar: alguns experimentos do Pink Floyd foram muito influentes. Radiohead que o diga! Enquanto a tal gravação completa não sai, dá pra ouvir uma prévia: o grupo tocou Eclipse, a última faixa do disco, no Morning Becomes Ecletic, da KCRW.
O Beck também está dando sua contribuição através do Record Club. O projeto, que reúne figurões como Nigel Godrich, Devendra Banhart e Binki Shapiro, já regravou o seminal The Velvet Underground and Nico e agora está fazendo o mesmo com The Songs of Leonard Cohen, álbum que deixa as letras (e o nível de depressão) de um Ian Curtis no chão...

14.12.05

Melhores de 2005

A música pop, desde antes de Nick Hornby e as listas de "Alta Fidelidade", vive de ciclos anuais. E todos os fins de ano chovem listinhas com os melhores lançamentos, revelações e afins. Como sou um amante dessas listas, cá está a minha. Este ano, inclusive, pude me dar o luxo de elencar os melhores shows. Então, lá vão minhas escolhas:

1. The Secret Migration (Mercury Rev): produto de uma banda madura, empenhada simplesmente em fazer boas canções. Ótimas melodias, harmonias que vão da psicodelia de bandas como Love até o folk-country de Neil Young, além de uma infinidade de imagens e metáforas geniais infestando as boas letras do grupo.

2. Funeral (Arcade Fire): tá, o disco é do ano passado, mas só no começo desse ano que ele caiu na minha mão e eu ouvi direitinho. Esquivando-se das modas desse começo de século, como a revisita à New Wave ou o rock garageiro, esse octeto canadense usa uma infinidade de influências e instrumentos para criar uma massa sonora impecável, cortada por melodias e riffs grudentos. E eles ainda tocaram no Brasil!

3. Black Sheep Boy (Okkervil River): Will Sheff, líder dessa banda norte-americana, inspirou-se na história do compositor Tim Hardin para criar um álbum com ares country, mas permeado de instrumentos diferentes, como acordeões e trompetes, e guitarras saturadas na medida certa. Destaque para as letras do álbum, como os seguintes versos da canção "For Real": "Some nights I thirst for real blood, for real knives, for real cries. And then the flash of steel from real guns in real life really fills my mind."

4. You Could Have It So Much Better (Franz Ferdinand): ao invés de seguir a fórmula do genial disco anterior, o grupo de Alex Kapranos optou por investir em outros sons. O primeiro single, "Do You Want To" trocou os riffs insanos de "Take Me Out" por ótimas batidas dançamtes. Já em "Walk Away" há a invocação dos Smiths em uma balada cheia de melancolia e ironia: "And I'm not cold, I am old/At least as old as you are".

5. Clap Your Hands Say Yeah (Clap Your Hands Say Yeah): guiada pela voz desafinadíssima de Alec Ounsworth (algo entre Bob Dylan e Gene Ween), esse grupo de Nova York faz um indie-rock cheio de qualidade e originalidade. Além do mais, esta é mais uma daquelas bandas que soube usar muito bem o boca a boca virtual e a distribuição maciça de MP3 para garantir um lugar ao Sol.

Menções honrosas: Antony & The Johnsons (baladas tristes, com ecos da fase Berlin de Lou Reed), Kaiser Chiefs (dance, motherfucker, dance), Bloc Party (mais rock dançante), Raveonettes (Buddy Holly encontrando o Jesus and Mary Chain), Ryan Adams (voltou a calçar suas botinas e lançou um monte de discos novos), José Gonzales (folk-singer que coloca o queridinho Willy Manson no chinelo), Sufjan Stevens (baladas folk dedicadas ao estado de Illinois).



Arcade Fire


Shows:

1. Mercury Rev (Curitiba Rock Festival): amparando-se no repertório do último disco, "The Secret Migration", e nos hits dos álbuns anteriores, o grupo evocou a atmosfera folk-psicodélica de estúdio de forma primorosa. Vale ainda lembrar da performance teatral de Jonathan Donahue e das imagens projetadas ao fundo da banda, que se integravam perfeitamente às canções.

2. Flaming Lips (Claro que é Rock): mesmo quem nunca tinha ouvido a banda adorou o show. Teve tudo: bolha espacial, confetes, serpentinas, ursinhos de pelúcia, bexigas e demais esquisitices providenciadas por Wayne Coyne e sua mente fritada pelos anos de consumo de drogas. E não faltaram os hits da banda, como "Do You Realize?" e "She Don’t Use Jelly", os quais foram devidamente acompanhados dos covers de uma versão karaokê de "Bohemian Rapsody" e da bélica "War Pigs", do Black Sabbath.

3. Arcade Fire (Tim Festival): a perfeita vingança dos nerds. Um bando de canadenses esquisitos que conseguiram fazer violinos e acordeões soarem mais pesados que as guitarras dos Kings of Leon. Somente Iggy Pop conseguiu rivalizar a energia e presença de palco do grupo em sua apresentação carioca.

4. Wilco (Tim Festival): solos longos à la Neil Young, baladas certeiras e uma ou outra dose de experimentalismo distribuídas em duas horas de show. Com mais de uma década de estrada, Jeff Tweedy contou com sua experiência e o amplo repertório da banda para fazer uma das melhores apresentações do ano.

5. Iggy Pop (Claro que é Rock): ele é o Iggy Pop. Ele tocou sem camisa e com o cofrinho a mostra. Ele se enfiou no meio do público, arrumou encrenca com os seguranças e com a "fuckin’ MTV". E tocou "I Wanna Be Your Dog" duas vezes. Precisa mais?

13.10.05

Natal em Marte


A banda mais doida da Terra está sugerindo a você um psicodélico e nonsense "Natal em Marte". Esse é o título do filme que o Flaming Lips pretende lançar em 2006, após anos e anos na produção da película. Pelos shows da banda (que vem ao Brasil em novembro) dá pra ter uma mínima noção da insanidade que vem por aí. As perfomances ultimamente têm incluído uma fantástica bolha de plástico envolvendo Wayne Coyne, que "flutua" pela platéia dentro dela, além de utilização de instrumentos bizarros, como gongos, e gelo seco e bonequinhos (!?).



Sobre o filme, Coyne diz: "Estou pensando em levar isso para os cinemas para que seja uma experiência em que o filme seja acompanhado de um sistema de som gigante, máquinas de fumaça, luzes de Natal, merdas caindo em você do teto e você poderá fumar maconha e fazer o que desejar". O doente mental prossegue dizendo que o espetáculo deverá ser presenciado no cinema e não em casa. "O filme deverá sair em DVD e terá uma trilha sonora, mas essa não será a experiência real", diz.

Para quem não se lembra, o lunático em questão já lançou com sua banda, em 1997, o absurdo disco quádruplo "Zaireeka", onde os quatros discos teriam que ser ouvidos ao mesmo tempo para que a música "fizesse sentido". A versão "juntada" do disco pode ser encontrada no Soulseek, mas os fãs mais afoitos dizem não ser a mesma coisa.

Loucuras a parte, a banda tem um arsenal muito potente de belas canções, como "She Don´t Use Jelly" e "Turn it on", do fantástico e demente (óbvio!) "Transmissions from the Satellite Heart", de 1993, e "Do you realize?" e "Fight Test", do último e melhor disco "Yoshimi Battles tje Pink Robots".

Por todas essas razões, o show no Brasil deverá ser, no mínimo, uma experiência única. Mas como diz o próprio Coyne em "Fight Test": é tudo um mistério!

Fonte sobre o filme: NME.com