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2.9.09

Black Drawing Chalks - My Favorite Way

Não bastasse terem lançado um dos melhores discos do ano ("Life is a big holiday for us"), os goianos do Black Drawing Chalks acabam de apresentar aquele que certamente entra no TOP 5 dos mais bem feitos clipes da história do rock nacional.

Para ilustrar a canção "My Favorite Way", disparada a mais bacana do disco, os integrantes da banda usaram o próprio dom para as artes gráficas. Fora das atividades rockeiras, eles integram o estúdio de desing Bicicleta Sem Freio, responsável pela criação dessa pérola videoclíptica. Aliás, o próprio nome da banda vem de um carvão usado para desenhar.

Prato cheio pra quem gosta de Mudhoney, Queens of the Stone Age, Kyuss e MQN.



Black Drawing Chalks My Favorite Way

30.7.09

Pitty - Me Adora

A Pitty é certamente um dos maiores alvos dos blasès modernetes brasileiros. Não que nunca tenha dado motivos. Só que muitas de suas músicas são boas. Boas de verdade. Além de ser a única artista do pop-rock mainstream nacional que sempre faz questão de divulgar suas boas influências, como Nirvana, Faith No More, Queens of the Stone Age, The Strokes, clássicos da Motown... E é óbvio que na cabeça dessa xaropada isso é inaceitável. Uma pena.

Nesta última semana ela soltou "Me Adora", single de estréia de seu novo disco, "Chiaroscuro", que será lançado no meio de agosto. E mais uma vez, foge do óbvio. Com batidas e guitarras quebradas, aliadas a uma melodia quase-que-Roberto-Carlos e letras bem lupicinianas, a baiana conseguiu um belo hit que, fosse cantado em inglês, seria a salvação do rock nesta semana.

Provavelmente o disco não siga essa linha, mas essa música em especial traz toda a boa receita do rock anos `00, dos Arctic Monkeys e The Strokes, com marcadas influências da Jovem Guarda e até dos últimos discos do Guided By Voices.

Largue um pouquinho de lado seu guia revolucionário do indie-roots culturete Rua Augusta e, escondidinho, sem ninguém saber, dê uma chance à moça. Vale a pena.



23.10.08

Discoteca BIFEcomXUXU - Rock Gaúcho

Eles odeiam o rótulo. Mas não tenho culpa de serem do RS e fazerem rock. Um rock fodido e fantástico, aliás, como não é feito em nenhuma outra parte do país. Enquanto as gravadoras mainstream e independentes continuam focando seu mercado no Eixo, eles continuam por lá soltando, ano a ano, um disco melhor que o outro. Se o público de hoje fosse tão receptivo ao estilo quanto era nos anos 80, certamente todos esses destaques aqui embaixo seriam itens obrigatórios na coleção de qualquer amante do gênero. São raras as pessoas que ouvem e não dizem imediatamente: "por que não conheci isso antes?". Sinto o maior prazer em ajudar a divulgar essas que são as bandas nacionais preferidas da minha existência. Divirtam-se!

JUPITER MAÇÃ – A SÉTIMA EFERVESCÊNCIA (1996)

Tomei contato com isso lá por 1997 ou 1998. Foi um susto. Como alguém poderia fazer aquilo e não ser um mega rock-star, em plena metade dos anos 90? Com arranjos altamente sofisticados de Marcelo Birck (um mito do RS) e um bendito potencial chicletento em cada uma das músicas, o primeiro disco desse projeto de Flávio Basso (ex-TNT e ex-Cascavelletes) fez com que eu parasse para olhar que estava sendo feito no underground brasileiro. Hits que viraram clássicos (“Um lugar do caralho”, “Miss Lexotan 6mg” e “Pictures and Paintings”) e hits que não viraram hits por motivos que só o Brasil explica (“As tortas e as cucas”, “Eu e minha ex”, “As outras que me querem” e o mantra-morrisoniano “Essência Interior”). Um arsenal de letra inspiradas e uma bem-sucedida digestão das influências de Syd Barrett, Jim Morrison, Mutantes, Arnaldo Baptista e a Jovem Guarda fizeram desse um dos melhores discos do rock nacional.

http://www.myspace.com/jupiterapple


WANDER WILDNER - BUENOS DIAS (1999)

Segundo álbum daquele que um dia chamaram de “punk brega”. Impulsionado pelo sucesso de “Baladas Sangrentas” e a regravação do Ira! para o hit “Bebendo Vinho”, Wander aparece com esse discaço recheado de ironia, sarcasmo, punk rock e baladas... sangrentas. Um disco que traz o hino “Quase um Alcoólatra”, além de “Refrões”, “Eu queria morar em Beverly Hills”, “Jesus Voltará” e “Minha vizinha” quase consegue bater a primeira posição do imbatível Júpiter Maçã.

http://www.myspace.com/wanderwildner


VIDEOHITS – REGISTRO
SONORO OFICIAL (2001)

Sou absurdamente fanático por essa pérola em forma de crocância lançada pelo mestre Diego Medina e seu séqüito. Nessa época eu já era gente mais grandinha e lembro da bola levantada pela extinta Revista Bizz para a banda. Era tanta falação que resolvi dar uma chance e ganhei uma paixão. Recuso-me a apontar qualquer música em especial. Quem gosta desse disco é daqueles que sabe de cor e salteado a letra e os berros de cada uma das 14 cançonetas. Além de tudo, esse é o disco que fez todos os indiezinhos papagaiarem para todos os cantos que Ronnie Von era uma pérola perdida de psicodelia nacional.



BIDÊ OU BALDE – OUTUBRO OU NADA (2002)

Depois de ganharem o prêmio de Revelação MTV com “Melissa” em 2001, muitos achavam que a vida desse suposto “one hit wonder” tinha acabado. Mas Carlinhos Carneiro, Leandro Sá, o maestro Leonardo Boff e o produtor mago-dos-magos Thomas Dreher voltaram com esse ambiciosíssimo “disco conceitual” (arrrrgh!, mas é verdade) em 2002. Uma pena não ter tido o sucesso de público que merecia. As faixas “Cores Bonitas”, “Microondas”, “Bromélias”, “Matelassê” e “Hollywood #52” são das melhores melodias já escritas no pop nacional.

http://www.myspace.com/bideoubalde


CACHORRO GRANDE – CACHORRO GRANDE (2001)

Conheci o disco e a banda pelo clipe de "Sexperienced", que vez ou outra passava na MTV, lá por 2001 ou 2002. Achei bacaninha as referências aos Beatles e tal, mas o que mais me chamou a atenção foi a levada porradeira do vocal e a guitarra estilo Hendrix, que impregnava na cabeça. Acabei encontrando o CD independente, produzido por... Thomas Dreher, na "Galeria do Rock" e risquei de tanto ouvir. Daqueles discos que dá prazer de conhecer faixa a faixa e ir descobrindo uma melhor que a outra. Além dos hits instantâneos ("Sexperienced", "Debaixo do Meu Chapéu" e o apogeu "Lunático"), traz o belíssimo rock de cabaré de "Lili" e o bluesão-garageiro "Dia Perfeito", presenças obrigatórias em todos os shows da banda.

http://br.myspace.com/cachorrogrande


CASCAVELLETES – ROCK 'A' ULA (1989)

Tudo que você entende por rock gaúcho começou aqui, tenho certeza disso. Com a sensacional trinca Flávio Basso-Nei Van Soria-Frank Jorge e performances absurdamente elétricas, a banda de moleques de menos de vinte anos conquistou as rádios gaúchas, depois do resto do Brasil e até trilha sonora de novelinha global (com "Nega Bombom"). Apesar da saída de Frank Jorge antes da gravação do disco (para se dedicar à Graforréia Xilarmônica) e da ausência do hit "Menstruada", o álbum é um míssel rock´n´roll inimaginável para o Brasil daquela época. Riffs marcantes e letras debochadas e non-sense estréiam aquilo que viraria a referência dos gaúchos anos depois. Impossível não ficar viciado pela história de "Jessica Rose" ou não imaginar Mick Jagger cantando e dançando "Eu Quis Comer Você". Destaque ainda para "Gato Preto" e "Lobo da Estepe", que abrem e fecham essa sementinha do rock gaúcho atual.

http://www.myspace.com/cascavelletes

16.9.08

Indienejo

As bandas indies sempre foram associadas ao mercado independente e ao modo alternativo de divulgar seus discos e promover seus shows. Isso mais na América e na Europa, onde realmente há grande espaço para esse nicho musical. Aqui no BR, como já farta e chatamente explorado, a coisa funciona mais na base do tripé brodagem+patrocínio público+burrice mercadológica, o que faz dessas bandas eternas promessas não-cumpridas. Porém, se você notar bem, quem faz as vezes do indie "roots" aqui nestas terras, queira ou não, é essa nova e gigante safra de duplas do chamado "sertanejo universitário".

É impressionantemente igual ao que ocorre lá fora com as futuras mega-bandas indies. No começo tocam em palcos menores em rodeios, normalmente de graça, distribuem CDR´s de suas demos ao público e às rádios locais e participam de qualquer tipo de evento que lhes dê alguma espécie de divulgação, inclusive os mais constrangedores. Tudo em esquema precário, sem dinheiro, sem gravadora, sem mega-empresário, sem MTV e sem qualquer tipo de brodagem. Não há super-portais de internet que invistam na promoção disso nem jornalistas pop prontos pra dar aquela "alavancadinha" na carreira dos sujeitos. Tanto que eles demoram bastante a vender discos. Tudo vai na base da pirataria e a grana entra por causa dos vários e vários shows que fazem em cidades menores.


Além do esforço absurdo dessas duplas, a divulgação em massa e em progressão geométrica é feita pelos fervorosos fãs, que passam os CD´s gravados de mão em mão, até o ponto em que viram mega-duplas sertanejas. Foi assim com César Menotti & Fabiano e Victor & Léo e está sendo com Jorge & Mateus e João Bosco & Vinícius. Fora a inesgotável fila de espera das outras duplas, que só aumenta a cada dia.


Goste ou não da música desse pessoal, não há como negar que esse é o verdadeiro mercado alternativo brasileiro. Enquanto isso, as bandinhas de rock ainda tentam fazer mais um amiguinho importante na imprensa... Mallu Magalhães o novo-folk? Sou mais esses caras, viu...

7.7.08

Brasilidade?

Está em todo lugar: a bossa nova, o movimento que mais projetou a música brasileira no exterior, está fazendo 50 anos. E qualquer interessado no gênero sabe que os EUA, a Europa e o Japão consomem mais bossa nova que o Brasil. Veja quantos discos de estúdio do João Gilberto você encontra nas Lojas Americanas e quantos encontra na Virgin...
Mas isso não importa para este texto. Quero apontar aqui outra questão: quando falam de bossa nova, dizem logo que ela surgiu da fusão do jazz com o samba. Ora, para mim bossa nova é jazz, com um certo sabor de brasilidade. Afinal, a bossa está mais próxima do samba ou do cool jazz de um Chet Baker? Digam aí:



Pois bem. Essa proximidade da bossa nova com o jazz poderia servir de exemplo para que o Brasil entendesse que boa música feita aqui não precisa estar cheia de "brasilidade". Mas, claro, isso não foi percebido por todos. A bossa logo foi taxada de reacionária, a tropicália e a MPB engajada e passadista ganharam destaque e a coisa só começou a mudar mesmo com o Sepultura, mais de 30 anos depois.
Hoje, felizmente, o cenário parece estar evoluindo mais. Temos, de um lado, uma banda como CSS, cuja maior brasilidade está no recente cover de "Marrom Bombom". De outro, um grupo como Los Hermanos, que une a tradição do samba (agora sim!) com o rock.
Por isso, acertada a decisão da Mallu Magalhães em gravar o próximo disco com um bom produtor, amplificadores vintage, microfones dos anos 60 e outros equipamentos que podem dar uma sonoridade retrô à sua música. Antes tentar melhorar suas canções country e folk a investir num pop rock em português, calcado no BRock que ela tanto gosta mas que poderia colocar suas melodias em perigo...
Porque não é só de brasilidade que vive a boa música brasileira.

1.7.08

Entrevista: Diego Medina

Pra ficar no clichê, Diego Medina é um sujeito que dispensa apresentações. Condutor e idealizador de trocentas bandas, publicitário, ilustrador, garoto propaganda de cerveja e chocolate e, acima de tudo, um sujeito extremamente gente boa, acessível e bom de conversa. Aproveitando a repercussão de sua ópera-rock Zombieoper, a inclusão de suas ilustrações no livro inglês “Stickerbomb” e o lançamento do “Desgraçados do Ritmo” (ufa!!), BIFEcomXUXU trocou uma longa idéia por e-mail com essa bacaníssima figura que é uma incansável máquina de criações. Curtam aí!


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MYSPACE

ZOMBIEOPER

ORKUT



BcX: Você acaba de voltar de um passeio pela Europa. O que trouxe de bom de lá, de discos e ilustrações? Alguma dessa tonelada de bandas novas te chamou a atenção? E nos desenhos, trás alguma nova inspiração pro seu trabalho?

DM: O que trouxe de melhor de lá foi o grande carinho com que os europeus me receberam. Fiquei impressionado como as pessoas foram queridas comigo e com a Carla (minha mulher) na Europa. Passamos por Amsterdam, Barcelona, Ilha de Wight (UK), País de Gales e Londres. Pra tu ter uma idéia do troço, eu chorei de alegria na balsa de volta saindo da ilha de Wight. Fiquei de boca aberta com a cacetada de amor e afeto que o pessoal da banda The Bees nos deu por lá. Parecia que a gente se conhecia há séculos. E em cada lugar que fomos rolou este carinho absurdo.

Trouxe também a idéia de que tudo é possível e aceito em matéria de arte, música, ilustração, etc. Na Europa tive contato com muita coisa diferente, muita coisa que não teria espaço aqui no Brasil. Coisas mais abstratas que eram criadas e consumidas perfeitamente por lá. Isso me mexeu bastante, me deu mais gana ainda de seguir pirando na batatinha [risos]!

Em matéria de compras, eu meio que dei uma segurada nos gastos durante a viagem. Mas em Londres mandei tudo à merda e gastei feito bicho. Comprei trocentos DVDs de filmes bizarros, muita coisa que já tinha em cópia pirata. CDs de música eu mais ganhei do que comprei. Ganhei vários do pessoal dos Bees na Ilha de Wight e mais um monte no País de Gales dos caras que fazem management pros Super Furry Animals e cia.

Adorei o último disco solo do Euros Child, The Miracle Inn. Curti também uma extinta banda galesa chamada Topper, muito inspirada em Bowie fase Ziggy. E o disco novo do MC Mabon, que é primo do Gruff (vocal do Super Furry Animals), é muito bom também. Parece um Gruff ligado no 220v.

Porra, e dei uma entrevista falando sobre a Zombieoper pra rádio BBC galesa. Isso foi uma demência sem tamanho. Jamais imaginei isso na minha vida, ser entrevistado pela BBC por causa de um disco caseiro meu.

BcX: Você é considerado um dos precursores da toyart e, mais recentemente, da artsy no Brasil. O que, de fato, te atraiu em cada um desses movimentos? Como foi ter desenhos incluídos no livro inglês "Stickerbomb"? Falta esse tipo de reconhecimento para os artistas daqui?

DM: Sou considerado precursor da toyart? Sério?? Tô sabendo dessa agora. Quando a toyart tava começando a pegar lá fora, eu acompanhava direto. Depois encheu meu saco, fui vendo muita coisa sendo repetida, com uma cara medíocre, e gente babando por isso.

O convite pra participar do livro Stickerbomb foi excelente. É o tipo de projeto que adoro, algo onde tu tem toda liberdade do mundo pra criar, estando no meio de artistas super talentosos e dentro de um produto final nota 10. Espero que me convidem pra mais desse tipo de projeto.


BcX: Tanto em seus desenhos como na música, nota-se claramente a mescla de elementos sujos, mais underground, com algo mais "fofo", mais palatável. Algo como se Roberto Carlos pegasse uma balada com o Mike Patton. Como funcionam esses dois mundos pra você?

DM: Eu curto o sujo, o estranho e o torto assim como curto a linguagem pop em diversos aspectos. Eu não consigo ser 100% experimental ou 100% pop. 100% experimental é hermético demais, cabeçudo demais. E 100% pop é meio raso pro meu gosto. Então tento ficar ali no meio termo da coisa, pop torto, sujo fofo.

BcX: No passado você esteve no centro do "hype" do que chamavam de rock gaúcho. Cerca de dez anos depois, poucas bandas conseguiram ficar em pé, em termos de visibilidade. Até que ponto aquele oba-oba prejudicou mais do que ajudou? As bandas erraram em algo ou simplesmente foram "largadas" pela crítica depois da onda?

DM: Realmente não tenho mais saco pra falar disso. O rock gaúcho e o pop nacional tão moribundos há anos na minha cabeça. Não consigo mais me identificar com aquela época de Video Hits, pop rock, dar a cara pra bater na TV, rádio, etc. Música pra mim é muito mais do que mercado quer, muito mais que assinar com gravadora e fazer parte do circo da mídia. Ao meu ver, música é arte. Pode ser um produto sim e tu pode viver dela, mas vejo o troço como um hobby que sou apaixonado.

Pouquíssimas vezes na minha vida eu encarei música como ganha-pão e nunca ganhei muita grana com ela também. Eu tenho um amor todo especial pela música que não me deixa voltar a montar uma banda e agüentar frescuras de integrantes, engolir sapo de executivos, fazer social com gente que só vive de imagem, etc.

Sinto um prazer enorme em poder gravar meus troços em casa sem pressão, fazendo o que bem entender. E quem quiser ouvir que ouça, quem achar uma merda que ache. Eu faço música pra mim mesmo (e pra alguns amigos que considero a opinião).

BcX: Atualmente você lança músicas pela internet e mantém um contato muito estreito com os fãs, pelo Orkut e pelo blog. O que te atrai nessa nova maneira de se lançar no mercado? E qual o segredo pra sobreviver nessa geração da internet, onde a venda de músicas e as verbas de direitos autorais foram pras cucuias?

DM: O que mais curto da internet é a liberdade. É um meio onde tu pode configurar tudo da maneira que achar melhor e tem controle sobre a forma que você quer apresentar seu trabalho. Sem falar que o mundo inteiro tem acesso ao teu material a cliques de um mouse.

Não existe ainda uma fórmula pra sobreviver nessa nova geração. O que acho meio triste hoje em dia é esse tipo de consumo imediato e voraz. Tudo é consumido hoje em dia de forma meio superficial, poucas pessoas ainda ouvem um disco de cabo a rabo, assimilam um álbum como uma coisa só. A impressão que tenho é que o pessoal mastiga 3 ou 4 músicas, sente um pouco do gostinho, cospe fora e parte pra outra. Eu ainda curto ouvir um disco inteiro e sentir o astral que o conjunto das faixas transmite.

E tem também o lance de ouvir música direto em fones de ouvido. Isso com certeza muda o modo como a música é consumida e produzida atualmente.

BcX: Nessa nova ordem da informação em massa, superficial e fugaz, você ainda consegue ouvir um disco inteiro várias vezes e idolatrar um artista? Quem são seus ídolos do passado e de hoje? Quem te faz sair de casa para ir a um show?

DM: Com certeza consigo. Eu sigo indo atrás e baixando muitos discos dos anos 60 e 70 em mp3. Acho que na virada dos 60 pros 70, mais ou menos de 1967 a 74, saíram discos incríveis que me fazem ouvir de cabo a rabo e pedir mais. Era uma época em que o pop caminhava junto com a inovação em vários aspectos. Você pode encontrar lindas melodias, lindos arranjos e produções excelentes de mãos dadas com um padrão musical que não era 100% pop. Hoje tu encontra muita gente escondida que trabalha assim, mas eu tenho um carinho todo especial pelos anos 60 e 70. Amo a sonoridade, amo as soluções criativas que nasciam trabalhando com equipamentos bem mais precários, uma certa pureza de espírito ainda pairando no ar.

Ídolos? Hmmmm... Depois dos 30 anos de vida tu não tem mais graaaannndeeesss ídolos. Claro que tem gente que admiro pra cacete, como Mike Patton, Beatles, alguns diretores de cinema, ilustradores e trocentas outras criaturas. E melhor ainda quando tu pode te encontrar com gente que admira e trabalhar junto, como foi o caso do Gruff dos Super Furry Animals gravando na minha casa ano passado.

Medina e Gruff nas gravações de Zombieoper


Eu não saio mais pra ver shows. Pelo menos não em Porto Alegre. Nada do que tá rolando por aqui me dá vontade de botar o pé na rua. Acho que algum show internacional imperdível me faria sair de casa, pegar um avião, etc. Mas tô bem faceiro socado em casa gravando meus troços, trabalhando com meus “freelas”, vendo meus DVDs e recebendo meus amigos pra bater um papo regado a cerveja e coisinha que pega fogo. Eu tenho tudo que preciso em casa, porque diabos vou sair? Pra socializar com o pessoal? Pois que o pessoal apareça lá em casa então.

BcX: Seus diversos projetos são sempre bem recebidos por seu público e pela crítica. Isso te dá segurança para cada vez mais fazer somente o que te dá prazer? Quais os reflexos diretos disso na sua arte?

DM: Como disse, quando faço música me interessa o que eu vou achar disso e o que gente que eu considero a opinião vá achar. Por mais que minhas gravações possam soar toscas, caseiras, inacabadas, teve trabalho duro ali. Minha autocrítica pode ser um grande inimigo às vezes porque eu sou meu grande carrasco, eu sou o cara que cobra se aquilo tá bom mesmo ou tá um lixo completo. Fora isso, tanto faz. Claro que faz bem pro ego receber elogios de estranhos ou da crítica, mas não é minha prioridade.

BcX: Como definiria cada um deles: Os Massa, Senador Medinha, Projeto Daytona, Doiseu Mimdoisema e Video Hits?

DM: Os Massa – brincadeira entre amigos. Encontro pra botar pra fora os demônios, encher a cara e dar risada. Eles foram muito importantes pra mim durante a época da VH. Eles eram minha válvula de escape do mundinho mídia-pop-rock-imagem e também me ensinaram a ver a música de uma forma mais solta, mais relaxada e até mais anárquica. Até porque pouquíssimos no grupo são músicos ou tem uma relação direta com a música. Mas são meus amigos do coração e eu amo gravar com eles.

Senador Medinha – comecei a gravar o primeiro disco do Senador logo depois da VH acabar. Foi mais ou menos o que Os Massa representavam pra mim na época, um projeto que fosse totalmente diferente daquilo que eu estava fazendo na VH. E naquela época eu tava doido pra gravar uma ópera rock. Sempre gostei do formato, adoro filmes como Rocky Horror Picture Show, Fantasma do Paraíso, etc. E tava ouvindo pra caralho o disco The Gay Parade do Of Montreal – também uma ópera rock. É muito legal poder contar uma história através das faixas de um disco. Eu adoro trabalhos com abundância de informação. No final de 2006 bateu a vontade de fazer outra ópera rock e me reuni com a Desirée (dos Massa) pra levar adiante o projeto. Acabou rendendo a Zombieoper.

Projeto Daytona – barulheira sem pé nem cabeça que às vezes gravo com o Gabriel Bubu (ex-Los Hermanos, atualmente Do Amor) quando a gente se encontra em Porto Alegre. Não tem regra, não tem melodia, não tem jeito [risos]!!

Doiseu Mimdoisema: minha primeira aventura desbravando sozinho gravações caseiras. Em abril de 1994, eu queria dar algo diferente pra um amigo que fazia aniversário em breve. Fiquei enfurnado no quarto com um gravador 4-track por 1 semana e gravei a primeira demo da DM pra dar pro cara. Tirei outras cópias da K-7 e botei pra vender numa locadora de CDs. Aí o troço foi se espalhando. Rolou muita coisa legal na época por causa da Doiseu. A imprensa recebeu super bem a primeira demo, gerou um público legalzinho e rendeu um contrato pra Banguela Records, a mesma que lançou Raimundos e Mundo Livre. O contrato com a Banguela deu em nada em matéria de disco, mas abriu trocentas portas e botou meu nome em algum pedacinho da história da música nacional.

Video Hits – começou comigo e com o Michel (bateria). O Michel era um grande amigo desde a época de colégio. Compomos uma série de músicas juntos depois do final da Doiseu, lá pela virada de 1996-1997. Chamamos então o Gustavo (baixo) e o Couto (guitarra), ambos já tocaram comigo na Doiseu. Nessa época o grupo se chamava Grupo Musical Jerusalém (uma piadinha infame sobre as bandas de festa-baile do interior do RS). Em 1998 o Michel descobriu que já existia um GMJ e mudamos o nome pra Video Hits porque era o título de uma coletânea famosa de hits dos anos 80. E hits dos anos 80 eram a última coisa que queríamos fazer, foi uma homenagem às avessas. O resto é história: gravamos um disco como quarteto em 1999 no estúdio Dreher, aumentamos a formação da banda depois de lançá-lo, rolou o contrato pela Abril graças a uma força do Marcelo Camelo (que amou nosso disco do Dreher), etc. Eu sempre recomendo ao pessoal que tá descobrindo VH só agora a ir atrás do nosso disco gravado pelo Thomas Dreher, Doces, Refrescos e Tratamentos Dentários. Dá de 10 a zero no disco que fizemos pra Abril.

BcX: A abordagem que você vem dando às suas músicas e seus discos é cada vez mais anti-comercial (disco duplo de ópera-rock, por exemplo). Há uma mágoa ou ressentimento com o pop? Você abusou do iê-iê-iê ou foi o contrário?

DM: Fui abusado pelo iê-iê-iê [risos] ! Não tenho ressentimento com o pop. Acho que mesmo no meio das coisas mais experimentais que faço tem sempre um elemento pop. Às vezes ele aparece mais claramente, às vezes tá diluído no meio da suruba sonora.

A minha relação com o pop mudou muito desde o final da Video Hits. Eu ando tendo tolerância quase zero a artistas ou músicas puramente pop. Não me acrescenta mais nada, não desperta interesse. Desperta sim tédio ou desânimo no meu coração porque sei que a música pode ser muito mais que 1-2-3-4. Mas com o tempo eu fui me dando conta que nem todo mundo quer inovar ou sair dos padrões de mercado. Tem gente que consome pop e trabalha com o pop numa boa, não sente necessidade de fugir disso porque é curte esse universo pop. Já eu tenho essa coceira de sempre querer ir um pouco mais além, acho muito importante aumentar minha bagagem cultural com coisas diferentes e tentar criar com elas.

BcX: Que artistas do cenário alternativo brasileiro te chamam atenção atualmente? Por que? E o relativo sucesso de bandas como o Cansei de Ser Sexy, contribui para ampliar a visibilidade e viabilidade dessas bandas e artistas alternativos no cenário interno e estrangeiro?

DM: Não acompanho mais o cenário alternativo brasileiro. A grande maioria das bandas que pedem pra ser meu amigo no myspace eu dou uma ouvida pra ver que tal é, geralmente soa uma bosta e nem adiciono. Não tô no myspace pra aumentar meu círculo de contatos virtuais. Me irrita essa mania de ter 49026 contatos e tu não conhecer metade da metade deles.

Acho que a banda carioca Do Amor é um dos poucos grupos nacionais que curto. Tem também o projeto +2 (Dom + 2 / Moreno + 2 / Kassin + 2) que adoro, eles conseguem ser pop e diferentes ao mesmo tempo. Mas o +2 nem é “alternativo”.

Sobre o CSS, é legal eles terem estourado lá fora. Não é meu tipo de som, mas bacana que conseguiram ultrapassar a barreira da distância e se firmar mundo afora.

BcX: Recentemente você participou do projeto da Imaginarium e lançou um disco como "Desgraçados do Ritmo". O que vem de bom para o resto de 2008 e começo de 2009? Alguma bombástica escondida nas mangas?

DM: Tô gravando umas músicas novas bem devagarinho em casa. Talvez seja o terceiro “disco” do Medina Bros Orteskra, talvez não. Provavelmente vai ser todo cantado em inglês. Tem seus momentos pop com melodia e tem coisas estranhas no meio, como barulhinhos de Nintendo DS, instrumentos eletrônicos estranhos, etc. Mas o proceso tá muito no início e tô gravando sem pressa. Na sexta-feira passada tava o Júlio Porto da Ultramen gravando umas guitarras lá em casa. Adoro ver o cara tocando, muito mestre.

Também sem muita pressa tô criando artes novas pra adesivos, camisetas e cartazes meus. Talvez tudo fique pronto no final do ano. Agora no inverno tô levando a vida num ritmo mais devagar, talvez porque eu odeie passar frio e sinta uma vontade de hibernar até a primavera.

Ah! E tem uma gravação dos Massa feita no feriado de Corpus Christ que preciso terminar de mixar. Tá a fina flor do barulho engarrafado.

20.6.08

A anta de cada um

PRA OUVIR ENQUANTO LÊ:





Lula é a anta de Mainardi. O Cansei de Ser Sexy é a minha. Pretensioso, né? Pela milésima vez cheguei à conclusão de que a banda, desde o início, não passa de um grande negócio muito bem arquitetado. É claro que os gatos pingados que gostam deles ficam mordidos com quem fala isso (alguem falou em teoria da conspiração?). Tem gente que acredita até hoje que o Sex Pistols era um grupo punk-libertário-anarquista. Enfim...



Ligue os pontos. Entre no maior portal de notícias brasileiro. Uma singela busca é suficiente para notar que eles têm mais notícias que The Strokes, The Libertines, White Stripes e quase o mesmo que Arctic Monkeys e Franz Ferdinand!!! Ok, pra ir mais longe, ganham da Rihanna, do 50 Cent, do Timbaland, da Björk... e por aí vai. É uma brincadeira divertida. Tentei a Pitty, Charlie Brown Jr. e Cachorro Grande também. E eles foram imbatíveis. Observo que no site do Estadão, por exemplo, os resultados foram bem diferentes. Deve ser diferença no "foco".


Aí você pega uma matéria no "Le Monde" que diz que eles "são os 'enfants terribles' da cena musical maluca de São Paulo". Eu não consigo imaginar essa cena musical maluca de São Paulo. Se fosse gaúcha ou goiana, vá lá. O Observer diz que lideram uma nova frente da world music (!!!!! – tipo, Gilberto Gil?) e que você precisa ouvi-los. Tudo bem. O pessoal lá de fora analisa mais pelo aspecto "The Sexual Life of the Savages", é o jeito deles. Mas, aqui no Brasil-il um blogueiro de sucesso diz que uma das músicas novas parece ter sido feita pelos BEATLES (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!). Caro leitor, mentalize aquele comercial da Wallita Juicer: "incrível, fantástico, imperdível, fenomenal". Ou até o mestre Ciro Bottini: "compre, compre, compre!". Não parece?


E é muito raro ver alguma matéria analisando criticamente a música em si. É sempre a roupa, a performance, o namorado da vocalista, a banda brasileira e coisas assim., "superafim"... Sempre "na brodagem". Uma coisa entre Capricho e Contigo.


Méritos e gostos musicais à parte, juro que não consigo achar tudo isso natural e meramente uma consequência do som deles. Can you?

26.5.08

Cumpadre Washington: O Timbaland tupiniquim?

O rock nacional está no limbo. E não é de hoje. O fervor criativo e a extrema popularidade vividos nas décadas de 80 e 90 submergiram a uma infeliz sobrevivência meramente mercadológica. O BRock existe apenas porque tem que existir como nicho de mercado e não pertence mais ao grande público. E tudo isso por incompetência dos chefões em alavancar e sustentar o sucesso das bandas desorientadas e mal exploradas que existem por aqui.

Há alguns anos o cenário das grandes bandas divide-se basicamente em duas vertentes-referência: Charlie Brown Jr. e CPM22.

A banda de Chorão é a última a existir naqueles vultuosos padrões antigos, de banda-elefante, com clipes caríssimos, mega-shows e esquema de marketing extremamente profissional. Rebentos: Tihuana, O Surto, Detonautas e o recente Strike. Todos de sucesso efêmero e fadados ao esquecimento. Vide a constrangedora nova música de trabalho de Tico Santa Cruz.

De outro lado, o movimento “sou emo, mas não sou” de Badauí e companhia. Bem articulado e especialmente antenado com as modinhas internacionais. Ainda abocanha uma fatia importante do mercado, graças principalmente ao sucesso do nosso “Polegar” indie, o NX Zero. Mas o próprio CPM22 já mostra desgaste e outras apostas, como Fresno, For Fun e Hateen, não passaram de one hit wonders.

Nosso último sopro lírico, Los Hermanos (a terceira via), teve morte prematura e deixou saudade apenas aos fervorosos fãs. O grande público nem imagina que eles tenham discos além “daquele que tem Ana Júlia”.

E o porquê disso tudo? Culpa das bandas? Claro que não! Não há como obrigar alguém a fazer um som que cative e existem MUITAS bandas sub-aproveitadas fazendo música boa por aí. E o público? Também não. Por mais desqualificada que seja a nossa massa de consumidores, há um limite de (in)tolerância.

O sucesso se faz basicamente com a união de grandes melodias com esquemas certeiros e agressivos de propaganda e marketing (bem sabem os ingleses). E essa última parcela da adição nossos empresários e produtores do rock ainda não aprenderam a decifrar. Lá fora trouxeram produtores de rap para enlatar as bandas e botá-las de volta nas paradas. Talvez nossa solução esteja nos empresários e produtores de axé music.

23.3.06

Cansei de Ser Sexy ganha o mundo



Caríssimos e caríssimas:

Voltamos à ativa com uma notícia no mínimo impactante.

De acordo com Erika Palomino, da Folha de São Paulo, a banda Cansei de Ser Sexy assinou contrato para lançamento de seu disco nos Estados Unidos com a falida gravadora Sub Pop, responsável pelo lançamento de Bleach, do Nirvana, e detentora do "passe" de bandas como Mudhoney, Built to Spill, The Constantines, entre outras trocentas.

Para quem não conhece, o Cansei de Ser Sexy é a banda foco do hype da grande mídia de São Paulo (leia-se Folha de São Paulo e MTV)há alguns anos. Com apresentações espalhafatosas de gosto duvidoso (principalmente de sua vocalista/desenhista da Triton, Lovefoxxx) e conteúdo musical de gosto mais duvidoso ainda, o CSS teve, desde seu início, a simpatia da "crítica" e dos formadores de opinião e o desprezo de grande parte do público.

Com méritos ou não, a banda, em pouco mais de 2 anos de existência conseguiu lançar música na versão nacional do seriado de Paris Hilton, incluir uma faixa no The Sims 2 brasileiro e até no Big Brother 6 e, agora, ser lançada no exterior por uma gravadora que tem um grande passado a zelar.

O sucesso interno da banda, porém, não é refletido em termos de público. Apesar da forcinha da MTV, seus videoclipes são de baixa execução e suas músicas não tocam nas rádios, com exceção dos amigos da Brasil 2000. Seu disco, lançado com estardalhaço pelo selo Trama Virtual, de Carlos Eduardo Miranda, e "brodeado" por Lúcio Ribiero e Erika Palomino (veja aqui), da Folha de São Paulo, não obteve vendas expressivas, mesmo com as aparições em festivais pelo país.

Agora, apadrinhado por Diplo, o marido de M.I.A, o CSS lança o disco e parte em turnê pelos Estados Unidos, a partir do meio do ano, com o padrinho e o trio de "funk" Bonde do Rolê, uma banda bem interessante de Curitiba, que consegue utilizar samples de clássicos do rock para fazer seu batidão (escute aqui).

Vamos ver onde isso vai parar.

6.12.05

Vamo quebra tudo! Vamo, vamo...

O rock é revolucionário por essência. Não que Lênin e Guevara usassem guitarras, mas a origem do negócio se encontra na quebra da monotonia, na chacoalhada comportamental e estética e no balanço dos esqueletos osteoporéticos do estabelishment cultural (em suma, a porra-louquice em si mesma). Nenhuma novidade, mas parto disso para fazer um paralelo de dois rumos discordantes sustentados por bandas de grande e médio porte no Brasil.



De um lado, pesando 120 kg, 2,15 m de altura e esmagadora carreira de vitórias mercadológicas estão Skank, Jota Quest e Charlie Brown Jr., os grupos de maior vendagem no segmento pop-rock nacional. Em comum, longos anos de estrada, grande número de fãs, execução em massa nas rádios e tv´s e confortável garantia de “lançou-vendeu”.

Apesar das diversas virtudes dessas bandas, principalmente no começo de suas carreiras, o comodismo financeiro e a fórmula do sucesso acabou por transformar o negócio deles num simples Lulu Santos mais pesado, uma espécie de Bon Jovi ou U2 tropical.

O grupo de Rogério Flausino lançou recentemente uma versão de “Além do Horizonte”, um pagode-fake que Roberto Carlos infelizmente sustenta em seu repertório magnífico. A letra fala explicitamente de liberdade e fuga, mas a interpretação da banda mineira sugere no máximo uma patética conversa pós-velório-rumo-ao-enterro.

Falando em fuga, os outros mineiros do Skank assassinaram um dos maiores clássicos de Gilberto Gil para o comercial da Rider. Na visão de Samuel Rosa, “Vamos Fugir” um quase-hino da contracultura tropicalista - que contou com os Wailers em sua versão original - mais parece uma cantiga entoada pelo Missionário RR. Soares, o Edir Macedo da Igreja Internacional da Graça de Deus.

Falando em Deus, o Chorão vai fundar uma religião. Eu tenho certeza disso. Ou vai retomar o Rodox com o “falecido” Rodolfo Raimundos. Não bastasse o verso “Eu descobri que azul é a cor da parede da casa de Deus”, da música “Lugar ao Sol”, de 2001, o auto-intitulado “Marginal Alado” me aparece com “o melhor presente Deus me deu: a vida me ensinou a lutar pelo que é meu”, do disco novo. Não sou ateu, mas, meu amigo, num vá arruma briga com o Padre Marcelo. Se continuar assim, quando o Bento XVI vier pro Brasil, quem cantará a Ave-Maria não vai ser a Fafá de Belém.

No outro lado, com mirrados 54kg, 1.65 de altura e uma carreira sustentada na unha os pesos-pena Cachorro Grande e Bidê ou Balde, dois grandes expoentes das bandas de médio porte. Em comum, 3 discos lançados, terninhos anos 60, o adesivo “rock gaúcho”, a fama de banda engraçadinha-chata e o histórico de shows ensandecidos.

Os dois grupos lançaram discos esse ano pela revista Outracoisa, administrada pelo mito Lobão e os trabalhos trazem algo que remete ao primeiro parágrafo: são verdadeiras homenagens epicuristas à destruição do falso prazer decorrente do comodismo e da bunda-molice. No dialeto de Lobão, constituem real expressão da “pau-durescência” inerente ao rock.

“É preciso dar vazão aos sentimentos!”, título auto-explicativo do mais recente lançamento do Bidê ou Balde é a exortação à necessidade de se mexer. Seja para fazer uma festa, para ir a uma cachoeira, para casar (!) ou apenas para dizer “sim” uma única vez. A faixa que dá nome ao disco trás os versos: “insiste em fazer o que te dá passa na cabeça/ Costuma esquecer o que te decepcionar/ acorda e segue em frente pro que quer que lhe aconteça/ afinal de contas ta na vida pra gozar”. Dá pra notar a tônica da mensagem.

No mesmo sentido, “Pista Livre” do Cachorro Grande expressa o que o “Famílila MTV” pôde mostrar nos últimos dias. Uma banda de amigos, festeira e compromissada com a auto-satisfação. “Nada me impede de fazer o que eu afim” é o que berra Beto Bruno na frenética “Agora eu to bem Loco!”. Os gaúchos mantém, após 3 discos de relativo sucesso, a mesma mensagem “chute aquela porta” do início.

É óbvio que os dois lados são necessários para o andamento do mercado e coisa e tal e sei que a maioria dos leitores não aprecia nem um pouco as “bandas gaúchas”, mas quem se arrisca a discordar que o rock brasileiro esqueceu o eixo Rio-São Paulo pra passear um pouco lá pelos Pampas, aproveitar umas “budegas” e recuperar suas “chalaçadas” e “chinelagens” originais?

10.11.04

Meu ouvido não é penico!

Assistindo ao acústico dos Engenheiros do Hawaii este final de semana retornei a uma constatação terrível (que julgo ser geral): o péssimo nível dos letristas das bandas de rock do país, falando aqui das bandas mais expostas na mídia.

Foi um sem-número de frases e rimas que me deixaram perplexos, coisas que buscam a poesia previsível, trocadilhos manjados e jogos de palavras babacas e sem qualquer correspondência com a expressão poética pretendida pelo “mestre” Humberto Gessinger.

Só para ilustrar minha raiva, observem:

"Por que será?/ Me diz, por que será/ que a gente cruza o rio atrás de água?"” (10.000 destinos)

"Ela para e fica ali parada/ Olha assim para o nada, Paraná/ Fica parecida, Paraguaia/ Pára-raios em dia de sol para mim/ Prenda minha parabólica, princesinha parabólica/ O pecado mora ao lado/ O paraíso/ paira no ar/ Pecados no paraíso” ..... “Paralelas que se cruzam em Belém do Pará/ Longe, longe, longe, aqui do lado/ Paradoxo nada nos separa/ Eu paro e fico aqui parado"” (Parabólica)

"O nosso amor é medieval/ É como uma pedra em um vidro de catedral"” (Sopa de letrinhas)

"Surfando Karmas & DNA/ não quero ser o que eu não sou/ eu não sou maior que o mar" (Surfando Karmas & DNA)

Sinceramente, não é necessário nem ser irônico. Dá uma olhada nessas letras. É capaz dele alegar até que opta pela poesia surreal! Surreal o caralho! Isso é um apanhado de metáforas ridículas, rimas muito mal elaboradas, paradoxos banais e assim vai.

O grande problema não é tanto escrever mal. Ninguém está exigindo que todas as bandas tenha um poeta por trás das guitarras. A grande questão é a postura de poeta, o menosprezo pela inteligência do público e a arrogância desses pretensos grandes letristas.

O Jota Quest é outro terror no quesito letras supostamente líricas. Vejamos:

"Eu quero ficar só/ mas comigo só eu não consigo/ Eu quero ficar junto/ mas sozinho só não é possível"” (Amor maior)

"Voe por todo o mar e volte aqui/ pro meu peito" (O vento)

"Pra que tanto telefonema/ se o homem inventou o avião/ pra você chegar mais rápido/ ao meu coração...A fome de amar é real/ não se traduz em fios/ Meu ouvido não ama/ apenas ouve os seus reclames"” (Tele-fome)

O que falar então do Ira! ("Você é meu sol/ um metro e sessenta e cinco de sol"”), do Capital Inicial ("Parei de pensar e comecei a sentir/ Nada como um dia após dia/ uma noite, um mês"), CPM22 ("Tanto faz o que vai rolar/ mas nunca espero voltar lá/Sempre tento me esconder/ para deixar de te ver") e Charlie Brown Jr. ("Acabei de ver mais um cachorro na estrada/ dor de cabeça, garganta ressecada")?

Poderia juntar trocentos posts comentando essas letras patéticas e, na sua maioria, feita às pressas só para finalizar e lançar o CD.

É claro que os grandes letristas são e sempre foram poucos, mas um mínimo de bom-senso e competência é o básico para poder se chamar alguém de artista e não mero tocador de músicas e alimentador da indústria fonográfica.

Mas o negócio não tem só o lado ruim. Vários artistas ainda salvam o nosso cancioneiro do rock, com letras bem sacadas, seja pelo lado lírico ou pelo cômico e non-sense. Grandes exemplos são Los Hermanos, Lobão, Bidê ou Balde, Gram, o extinto Video Hits, Nando Reis (com algumas ressalvas), o próprio Réu e Condenado comentado no post anterior, e vários outros.

Com certeza o sucesso dessas bandas de péssimos letristas está ligado ao desprezo do público em geral pelo texto, fixando seu gosto apenas no “embalo” da música, não dando a mínima para o que o vocalista está falando (ou berrando, ou vomitando). Azar da nossa cultura.