9.3.05

Rocky Votolato - Suicide Medicine





Ele não é conhecido, ele não é famoso, ele não pertence ao catálogo de nenhuma grande gravadora. Mas ele é foda. Texano de nascimento e agregado ao efervescente mundo musical de Seattle, Rocky Votolato iniciou sua carreira na obscura banda Waxwing, em 1996, um projeto que não proporcionou maiores honrarias. Percebendo a discrepância entre a expressão de suas letras e o som produzido pela banda, Rocky optou por procurar uma nova textura, mais calma e intimista, baseada na bela interação de sua voz, suas letras e o violão. Assim, em 1999, iniciou sua carreira-solo, com um disco que levava apenas seu nome como título, despejando canções que, tempos depois, iriam ser enquadradas naquilo que a imprensa musical classificou como “alt-country” (aliás, que rótulo tosco!).


Nesse terceiro trabalho, Votolato chega ao ápice de seu lirismo, conseguindo reunir um grande acervo de músicas potentes e letras que impressionam pelas imagens e sentimentos expressados, passando da revolta quase panfletária (“Prison is Private Property”) a uma tristeza e melancolia que chegam a dar dó (“Alabaster” e “Automatic Riffle”). Por trás de suas composições e de seu voz-e-violão está uma banda de apoio formada por Casey Fobert (do Pedro The Lion), Seth Warren (do Red Stars Theory) e Matt Johnson (do Roadside Monument) e a produção de Chris Walla, que já trabalhou com o Death Cab for Cutie.


Certamente a maior marca de todas as faixas é a força empregada por Votolato na interpretação de suas letras, dando ênfase ao seu belo texto, que traz pérolas como em “Suicide Medicine” (“Oh god I love you / I mean forever / I left my body behind to break the news / looks like it's over / please remember all of the things I never got a chance to say / like you look smashing in your fourth grade picture the one that we hung by the door / in our house that was so beautiful / there in our little home”) e na mais bela canção do disco, “Automatic Rifle” (“The night I turned 25 it was legos on the floor / it seemed like a safe enough game / for a man to play with his daughter / an automatic rifle and a bullet through the window / and the troops are satisfied that justice had been delivered”). Vale observar que Rocky deixa expresso um lirismo violento, repleto de imagens fortes, como em “The Light and The Sound” (“If I have to crack open your skull with my fist/ I´ll let the light and the sound escape”), “Death-Right” (“I´ve seen men wallow in fear/ Inaction acts as a blade across the throat”) e “Prison is Private Property” (“But I´d rather starve than be a whore for an
empty living
”).



É nesse ponto que aparece o grande diferencial de Votolato em relação a seus pares de estilo: sua letra não se baseia apenas no romântico estado de sofrimento amoroso ou de depressão melancólica. Traz também, e de maneira muito forte e recorrente, versos cortantes e agressivos, acenando com cenas e vivências chocantes, num “realismo” (aqui como oposição ao “romantismo”) que destoa do genericamente produzido no gênero. Por isso, talvez, a relutância de Rocky em ser associado a bandas como Dashboard Confessionals e Bright Eyes. Como ditto por ele em entrevista: “Whoever is the big deal, that´s sort of what the smaller artists with na acoustic guitar will be compared to. Four years ago, everyone said I was like Elliot Smith. That´s the easy and lazy thing to do, but that´s always gonna happen and it doesn’t bother me. I don´t care. If people really wanna listen to my record they´ll be able to hear the differences. I just don’t think it´s woth losing any sleep over”.

O que se pode dizer é que o resultado do disco insere Votolato com destaque no grande rol dos artistas do “alt-country” que começam a despontar, como Damien Rice, Damien Jurado, David Gray e Pernice Brothers, ao mesmo tempo em que trás reminiscências de Jeff Buckley e Paul Westenberg, isso sem falar em Nick Drake e todos os folk-men (existe essa expressão?) dos anos 60 e 70. Vá atrás, vale a pena.

28.2.05

A arte das canções miseráveis (parte II)

De uns tempos para cá ouvi falar muito do Bright Eyes. Li em alguma revista que o carinha tinha umas letras estilo Bob Dylan, e que as músicas lembravam um folk bacana. Bom, consegui o novo disco do sujeito, chamado “I’m Wide Awake; It’s Morning” e logo na primeira faixa que escolhi para ouvir (“First Day of My Life”) notei que havia alguma coisa no disco.
Cheguei então à conclusão que o tal do Bright Eyes faz parte daquele rol enorme de bandas melancólicas que se proliferaram depois que o Radiohead lançou o “The Bends”, como Travis, Coldplay, Keane etc. A maior parte delas usa a fórmula segura de melodias grudentas, guitarras pesadas aqui e acolá, pianinhos bonitinhos em arranjos simplistas e letras metidas a tristonhas.
Mas algumas vezes, por mais que você saiba que essas musicas não são obras-primas, elas dizem alguma coisa. Nessa “First Day of my Life”, por exemplo, Conor Oberst, o sujeito por trás do Bright Eyes, lança os versos “I remember the time you drove all night/Just to meet me in the morning/And I thought it was strange, you said everything changed/You felt as if you'd just woke up” acompanhado só por um violãozinho. Dependendo das circunstâncias, essas palavras simplistas são certeiras.
Mas é até fácil entender que o efeito que o Bright Eyes causa, já que trata-se de uma banda séria, que tem fãs como Michael Stipe. Só que nem sempre as palavras certeiras são disparadas por músicos de respeito.
Eu mesmo confesso que sou um fã incondicional de “Complicated”, da Avril Lavigne. Por mais que eu saiba que aquilo deve ter sido criado por um produtor gordo e velho e que todos os instrumentos foram tocados por chatíssimos músicos de estúdio, a música me diz algo. Ela tem uma dinâmica fantástica, saltando do verso para o refrão de um jeito irresistível. A mesma coisa acontece com o refrão de “Happy Ending”. Aquele “You were everything that I wanted/We were meant to be, suppposed to be/But we lost it” é digno de qualquer canção do Radiohead na fase “The Bends”.


Isso me leva a uma conclusão - talvez filosófica demais - que essas musiquinhas tem ação rápida, direta. Elas não dependem de lá muita atividade intelectual. Você não precisa saber apreciar ela, como faz com os versos truncados de um Bob Dylan ou as metáforas herméticas de um Leonard Cohen.
É direto e preciso, como uma boa música pop que torna sua vida mais miserável deve ser.

25.2.05

A arte das canções miseráveis (parte I)

De uns tempos para cá ouvi falar muito do Bright Eyes. Li em alguma revista que o carinha tinha umas letras estilo Bob Dylan, e que as músicas lembravam um folk bacana. Bom, consegui o novo disco do sujeito, chamado “I’m Wide Awake; It’s Morning” e logo na primeira faixa que escolhi para ouvir (“First Day of My Life”) notei que não havia muito conteúdo no disco.
Cheguei então à conclusão que o tal do Bright Eyes faz parte daquele rol enorme de bandas melancólicas que se proliferaram depois que o Radiohead lançou o “The Bends”, como Travis, Coldplay, Keane, Camera Obscura etc. A maior parte delas usa a fórmula segura de melodias grudentas, guitarras pesadas aqui e acolá, pianinhos bonitinhos em arranjos simplistas e letras metidas a tristonhas. Como diria o Homer Simpson, naquele clássico episódio com os Pumpkins e o Sonic Youth, é muito fácil deixar a molecada deprimida...
Posso até estar ficando chato demais, mas acho que a maioria do que essas bandas faz é simplesmente dissolver o que seus antecessores fizeram. Para notar isso é só ouvir o “The Bends” e perceber que o Thom Yorke e seus amigos sabem como fazer uma coisa realmente melancólica e com uma evidente qualidade. As letras não se apegam em imagens simplistas, como fez a “First Day of Life” que citei ali em cima (“I remember the time you drove all night/Just to meet me in the morning/And I thought it was strange, you said everything changed/You felt as if you'd just woke up”), nem em arranjos previsíveis - apesar que, ouvindo hoje o “The Bends”, é difícil notar toda a novidade, já que a influencia do disco já foi bem absorvida.
wilco

Mas, para a reclamação não ficar em conversa de velho, cito aqui um disco de 2004 que é realmente melancólico: “A Ghost is Born”, do Wilco. O disco abre com um pianinho baixíssimo e o sujeito murmurando, a beira da cama de uma mulher chorando, algo sobre ir embora. Quando você espera que isso vá emendar em um refrão grudento, surgem guitarras pesadíssimas capitaneadas pelo líder da banda, Jeff Tweedy e seu novo parceiro Jim O’Rourke (que também toca no Sonic Youth). Daí para o fim, é só barulho e riffs. Mas até mesmo as canções mais pop do disco, como a acústica “Muzzels of Bees”, traz doses de melancolia de qualidade (“And dogs laugh, some say they're barking/I don't think they're mean/Some people get so frightened/Of the fences in between”).
E, para quem quiser conhecer os caras que realmente entendem do assunto, deixo algumas sugestões: “Berlin” do Lou Reed, cheio de violência doméstica e crianças órfãs; “Small Change” do Tom Waits, que cheira à álcool do começo ao fim; “Third/Sister Lovers” do Big Star, carregado de ressentimento; “Songs of Love and Hate” do Leonard Cohen, com suas imagens que vão de uma avalanche soterrando a alma a um Papai-Noel com uma faca de aço inoxidável; e, por fim, o clássico “Blood on the Tracks”, de Bob Dylan, parido dolorosamente após o rompimento de seu casamento.
Divirtam-se.

17.2.05

Bons tempos aqueles da boemia

De volta das férias, o tema para a primeira coluna do ano não poderia ser diferente. Imortalizada na voz de Nelson Gonçalves, a boemia certamente não é apenas uma maneira de vida, é um patrimônio histórico e cultural da música brasileira.

Vivida intensamente nas décadas de 30 a 50, foi a responsável por um sem-número de canções ora chorosas e doloridas ora alegres e contemplativas, que retratavam um mundo de sofrimentos amorosos e festas animadas regadas à cerveja e violão pelas madrugadas dos botecos. É dessa “filosofia de conversa de bar” que saíram grandes mestres e grandes momentos da nossa música popular, que, apesar de completamente esquecidos hoje em dia, merecem sempre ser reverenciados.

Entre os precursores, vale a pena citar:

- Noel Rosa, com seus versos inteligentes e sempre ácidos (“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa/ uma boa média que não seja requentada/ um pão bem quente com manteiga a beça/ um guardanapo e um copo d´água bem gelada” – Conversa de Botequim);

- Cartola, com seu inconfundível lirismo sentimental e doído (“Procuro afogar no álcool a sua lembrança/ mas noto que é ridícula a minha vingança/ Vou seguir os conselhos de amigos/ E garanto que não beberei nunca mais/ E com o tempo esta imensa saudade/ Que sinto se esvai” – Peito Vazio);

- Ataulfo Alves, talvez o mais injustiçado de todos, consagrado na voz de Orlando Silva, o “Cantor das Multidões” (“Eu na verdade/ Indiretamente sou culpado/ Da tua infelicidade/ Mas se eu for condenado/ A tua consciência/ Será meu advogado” – Errei, Erramos);

- Lupicínio Rodrigues, considerado o pai da “dor-de-cotovelo” ( “Quem há de dizer / Que quem você está vendo/ Naquela mesa bebendo / É o meu querido amor/ Repare bem que toda vez que ela fala/ Ilumina mais a sala / Do que a luz do refletor/ O cabaret se inflama quando ela dança/ E com a mesma esperança/ Todos lhe põem o olhar/ E eu, o dono/ Aqui no meu abandono/ Espero, louco de sono/ O cabaret terminar” – Quem há de dizer);

Todos tiveram seu apogeu entre as décadas de 30 e 40, mas, invariavelmente, restrito a guetos de apreciadores e praticantes desse estilo de vida. Tempos depois, surge nova leva de boêmios, resgatando os princípios de seus mestres, sempre levando suas canções numa mistura de samba, bolero e tango, enfatizando, ao mesmo tempo, a alegria e a dor de cotovelo inerentes à boemia. Entre os maiores, dá pra destacar:

- Paulo Vanzolini, fantástico sambista e letrista de São Paulo, apreciador da noite e grande estudioso de biologia (o museu de Zootecnia da USP leva o nome dele) – (“Eu não bebo pra esquecer/ bebo pra lembrar/ Bebo e cambaleio e tenho/ você ao meu lado/ É o meu instante de felicidade/ Vou andando na neblina das ruas/ Conversando com você/ Cantigas da perdida felicidade/ Seu perfume se mistura ao cheiro bom da madrugada/ Sua mão nem pesa em meus braços/ Mas seu contato é doce, doce/ E o rumor dos seus passos é música, música pura” - Valsa das Três da Manhã);

- Adoniran Barbosa, de todos, o maior símbolo da boemia paulista, dispensa apresentações (“Com a corda Mi do meu cavaquinho/ fiz uma aliança pra ela/ prova de carinho/ Quantas serenatas eu tive que perder/ pois meu cavaquinho já não pode mais gemer/ Quanto sacrifício eu tive que fazer/ para dar a prova pra ela/ do meu bem querer” – Prova de Carinho)

- Dolores Duran, com suas interpretações dignas de lágrimas, uma das maiores influências de Cazuza (“Eu desconfio/ Que o nosso caso esta na hora de acabar/ Há um adeus em cada gesto/ Em cada olhar/ O que não temos é coragem de falar/ Nós já tivemos a nossa fase/ de carinho apaixonado/ De fazer versos/ de viver sempre abraçados/ Naquela base do só vou se você for” – Fim de caso).

- Nelson Gonçalves, que apesar de não ser compositor, emprestou sua voz magnífica à composições que viraram clássicos (“Tango, meu tango triste/ Tantas vezes aqui nesta calçada/ Choramos juntos/ meu tango triste/ Como rivais disputando a bem amada/ Tango, meu tango triste/ fora de moda, desprezado como eu/ Meu companheiro de boemia/ a noite sobre ti também desceu” – Último Tango).

Não há como negar a beleza dessas letras, a maestria dos arranjos (dá uma procurada na Internet que dá pra ouvir todas elas) e o clima intenso e verdadeiro que cada uma delas passa. Todos esse mestres ainda serviram de influência para outros, como Benito de Paula (“Você me olha desse jeito/ meus direito e defeitos querem se modificar/ Meu pensamento se transforma/ me transporto simplesmente/ penso coisa diferente/ Vejo em você meu amor”), Zeca Pagodinho e Cazuza, isso sem citar toda a geração bossa-nova e diveros outros grandes adeptos da tradição boêmia.

Uma pena que uma fase desse porte da música nacional seja esquecida e pouco reverenciada, talvez por falta de informações, talvez por falta de discos no mercado, talvez por falta de interesse das pessoas em conhecerem nossas raízes. Valeria muito a pena se isso fosse revivida, se tivéssemos uma nova geração de boêmios apaixonados que cantam o amor, a dor e a alegria, num puta clima de amizade e conversa de bar, onde o que importa é cantar, tocar, conversar e tomar uma cerveja.

Por outro lado, para aqueles que se julgam dignos do espírito da boemia, vale o tapa na cara de Paulo Vanzolini, em “Falso Boêmio”:
“Talvez então não dissesse/ que bebe pra ver se esquece/ que a madrugada o inspira/ Você fazendo o que faz/ Só mostra que quer cartaz/ Que é um boêmio de mentira/ Porque não é boemia/ Trocar noite pelo dia/ Beber com ar de tristeza/ Ser boêmio é ser diferente/ É viver liricamente/ Padecendo com grandeza”

4.2.05

Sim, estamos vivos.

Post relâmpago só pra prometer que, após o Carnaval, o blog retorna. Estamos fazendo um layout novo e tudo mais.
Então, não achem que isso aqui tá abandonado. É que agora temos coisas melhores pra fazer. Mas como as férias terminam logo, teremos muito mais tempo pra escrever nossas belíssimas colunas...

13.12.04

Lista de fim de ano! (atualizada: agora virou top 10!)

Não tem graça nenhuma escrever sobre música se não pudermos criar uma tradicional lista de fim de ano, onde falamos um monte de baboseiras para dizer que certos discos são legais. Ainda mais quando isso é mais fácil do que pensar em uma coluna bem elaborada...
Então, cá está o meu Top 10 (sim, consegui arrumar um número 10)!

1 – A Ghost is Born (Wilco): apesar de ainda trazer os ganchos pop que sempre caracterizaram as canções do líder da banda, Jeff Tweet, esse álbum, lançado após o aclamado “Yankee Hotel Foxtrot”, é um tanto quanto “difícil”. Criado após Jeff ter saído de um processo de reabilitação em virtude de seu vício em antidepressivos, o disco soa, em determinados momentos, como uma mistura dos enormes solos de Neil Young em “Everybody Knows this Is Nowhere” com as experimentações sonoras de um Sonic Youth. Até mesmo as letras das canções mais pop têm alguma densidade, sendo que algumas beiram o desespero puro e simples, como a faixa de abertura “At Least It´s What She Said” (“When I sat down on the bed next to you/You started to cry/I said, maybe if I leave, you'll want me/To come back home”). Um disco complexo, que vale a pena ser ouvido com atenção.

2 - Uh Huh Her (PJ Harvey): após o bem produzido “Stories From the City, Stories From the Sea”, de 2001, a deusa PJ Harvey retorna com um disco sujo, esquisito e pesado. Por cima de riffs blueseiros e guitarras saturadas PJ Harvey, despeja letras perfeitas que trazem imagens de navalhas, culpa, desespero e um puro e simples “foda-se”. Outro disco difícil de digerir, mas que possui uma qualidade evidente.

3 - Universal Audio (The Delgados): abandonando as orquestrações do disco anterior, “Hate”, os escoceses dos Delgados lançaram o álbum mais pop de sua carreira. As canções do disco mostram que o grupo sabe perfeitamente como criar boas melodias e riffs que desembocam em refrões fantásticos, como em “Everybody Come Down”. Mas, como bons escoceses que são, não abandonam canções melancólicas, como a belíssima “The City Consumes Us”.

4 - Smile (Brian Wilson): após 37 anos de abortar o projeto por causa de um surto psicótico, o ex-líder dos Beach Boys concluiu um dos mais lendários discos de todos os tempos. Unindo-se ao letrista Van Dyke Parks, responsável pelas letras surreais do disco, e a uma banda de músicos profissionais, o músico conseguiu um resultado perfeito. O disco, apesar de parecer inteiramente conectado, possui canções com texturas diversas e baseadas em uma grande diversidade de instrumentos, harmonias e melodias. Trata-se, inegavelmente, do trabalho de um gênio, como é fácil notar após a audição da lisérgica versão de “Good Vibrations” ou da fenomenal “Heroes and Villains”.

5 - Franz Ferdinand (Franz Ferdinand): um álbum dançante recheado de teclados oitentistas, guitarras modernas e letras espertas. Apesar da postura fashion e de todo o hype lembrarem outros contemporâneos, como os Strokes, o grupo tem uma identidade própria, e é tão bom quanto seus colegas. Não vai mudar a história do rock, mas é legal pra diabo.

6 - You're the Quarry (Morrissey): após alguns anos sem gravar, o ex-líder dos Smiths retorna com um disco impecável. Ao invés da tradicional melancolia, aqui impera a ironia, com Morrissey apontando sua metralhadora para os Estados Unidos, a Inglaterra ou os chatos do mundo. E também estão presentes as já tradicionais construções geniais que somente Morrissey consegue criar, como “my life is an endless succession of people saying goodbye”.

7 – Final Straw (Snow Patrol): deixando para trás o estilo demasiadamente indie que marcou os discos anteriores, os escoceses do Snow Patrol fizeram um dos álbuns mais pops do ano, cheio de refrões grudentos, belas melodias, letras bonitinhas e guitarras com a quantidade exata de distorção. Somente com muito talento é que uma banda conseguiria criar canções fantásticas com temas já batidos, como timidez, amor adolescente e brigas conjugais.

8 - Hot Fuss (Killers): outra banda que buscou sua inspiração nos anos 80, dando uma nova roupagem ao som calcado em sintetizadores e guitarras, criado pelo New Order, com canções que falam de androginia (“Somebody Told Me”), assassinatos passionais (“Jenny Was a Friend of Mine”) ou relacionamentos conturbados (“Mr. Brightside”).

9 - Dresden Dolls (The Dresden Dolls): um casal que faz uma música baseada em piano, voz e bateria, inspirando-se em Bertold Bretch e em cabarés da Alemanha da era do jazz só poderia ser um saco. Certo? Não! Com cançoes que lembram o glittler rock de T.Rex, Roxy Music e a fase Alladin Sane de David Bowie, e com letras ambíguas cantadas pela vocalista Amanda Palmer com um charmoso sotaque alemão, essa dupla lançou um dos discos mais legais do ano.

10 - You're a Woman, I'm a Machine (Death From Above 1979): uma dupla canadense que usa somente um baixo ultra distorcido e uma bateria insana para criar um turbilhão sonoro que faz jus ao nome. Perto desse duo, o White Stripes parece Sandy & Júnior...

3.12.04

"Whaaat would you do..."



Enfim, de novo! A TV Cultura volta a passar, desde o início, a série mais fantástica de todos os tempos. O que intriga é o porquê dela causar tanta aceitação do público (não falo só por mim), mesmo tendo sido produzida há mais de dez anos e ter o enredo passado no fim dos anos 60 e por todo os anos 70.

Não dá para negar a identificação da maioria das pessoas que assistem com o personagem principal, Kevin Arnold. É o típico adolescente "loser": zoado pelo irmão mais velho, dominador na relação com os amigos e fracassado nas tentativas amorosas. Um pobre coitado que pensa 15 vezes antes de fazer uma besteira.

Na verdade, o narrador (ele mais velho) se comporta como uma consciência arrependida, um olhar crítico severo sobre as reações impulsivas e fracassadas que o "loser" tinha quando moleque. E tudo num tom de "Caralho, como eu era idiota" durante os episódios e "Putz! Q saudade que eu tenho daquilo", nos finais filosóficos (aliás, sempre ensinadores).

O incrível é que a série é um retrato absurdamente real dos terríveis conflitos internos vividos naquela fase da vida, sendo indiferente a época, país ou condição social do personagem . Ao mesmo tempo em que ressalta a beleza e a alienação sincera de um moleque que só queria se dar bem, seja com a Winnie Cooper, no 21 contra o Paul ou nas zoações do Wayne, no meio de um mundo em que rolava o movimento hippie, a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã.

Outro fator de identificação eu acredito que seja a trilha sonora, lotada de grandes clássicos do rock da época, ouvindo-se desde Jimi Hendrix (que num episódio a irmã "hippie" definie como "o maior guitarrista do mundo" ao respoder à mãe que mandava ela desligar aquele barulho), Bob Dylan, Beatles, Beach Boys, Joan Baez, The Monkees, The Doors, Cream, Johnny Cash, Neil Young e uma porrada de outros grandes. Por sinal, dá pra conferir no site http://whiplash.net/cinemaanosincriveis.html a trilha sonora de cada episódio (fantástico isso!).

Pelo fato de ser uma representação da visão de um menino sobre as coisas, eu sinceramente não sei qual a aceitação entre o público feminino (questão a ser resolvida nos comentários) bem como em relação aqueles que não conhecem a fantástica trilha sonora (eu, sem conhecer porra nenhuma das bandas, já curtia quando era criança).
Mas, realmente, os roteiristas merecem todas as honras por terem ido tão fundo na análise psicológica e por terem colorido as "enrascadas" do nosso "loser" com uma trilha sonora do caralho! Dá até vontade de ter vivido naquela época...
Então não percam amiguinhos: todo dia, às 18:30 na TV Cultura.

PS: que o idiota era lerdo com a Winnie Cooper, ele era hein? Puta que pariu!

29.11.04

Deus!

Após tantos anos, não restam mais dúvidas: o rock costuma arregimentar pessoas realmente miseráveis. Tanto que suicídios, vício em drogas, alcoolismo e comportamentos violentos são extremamente comuns no meio. E, onde há esse tipo de sentimento, hora mais, hora menos, os sujeitos acabam tentando buscar algo mais "transcendental". E não há nada que represente melhor essa busca do que a religião.
Por isso, apesar de todo o senso comum apontar o caráter demoníaco do rock, este estilo acabou sendo responsável por algumas das mais profundas canções "religiosas" já compostas, superando, em muito, aquelas cantadas em bancos de Igrejas por padres desafinados, tias-avós e coroinhas.
O caso mais notório talvez seja o de Bob Dylan que, na virada dos anos 70 para os anos 80, lançou uma seqüência de álbuns realmente religiosos. Apesar da Bíblia ter servido, anteriormente, como inspiração para Dylan, as canções desta época trataram o tema de forma bem mais explícita, fato que afastou muitos fãs do cantor e o aproximou da comunidade religiosa. Mesmo com este fanatismo, Dylan acertou a mão em algumas canções, com destaque para "Every Grain of Sand", cuja inspiração no Evangelho o ajudou a criar versos como: "I gaze into the doorway of temptation's angry flame/And every time I pass that way I always hear my name/Then onward in my journey I come to understand/That every hair is numbered like every grain of sand.

And from your lips she drew the Hallelujah

O canadense Leonard Cohen também deu sua contribuição ao compor "Hallelujah", misturando cultura judaica, busca pela fé e boas doses de amor mundano. Tempos depois a canção foi regravada por Jeff Buckley, que, inspirado em uma versão de John Cale, trocou a sonoridade oitentista do original, carregado de teclados, por sua guitarra minimalista e sua voz passional. O resultado foi tão bom que Buckley deve ter garantido seu terreninho nos céus.
Mas o caso curioso mais curioso talvez seja o de Lou Reed, que, no terceiro álbum do Velvet Underground, gravou uma canção chamada... "Jesus"! Nessa belíssima balada, o compositor limita-se a pedir ajuda a Jesus para encontrar seu lugar no mundo. Assim, em meio à canções que falavam de travestis, das ruas de Nova York, de drogas pesadas e de violência, o compositor consegue encaixar, com perfeição, uma cançãozinha acústica cujo coro se limita a um "Jeeeesuss, Jeeeesuss..." quase choroso.
O que pode demonstrar que, no fundo, as drogas, a auto-destruição, a música ou um Deus são apenas caminhos para encontrar algum tipo de paz. Mas isto já é filosofia demais para um post só.

23.11.04

10 motivos para acabar com uma boa banda

A função do blog não é ficar dando notícias do mundo pop, mas essa vale a pena. Pra quem não sabe, os caras do Luna - uma dessa bandas fenomenais, lideradas pelo genial Dean Wareham, que não se preocupa em sair com supermodelos ou com o torso nú na capa da Rolling Stone - anunciaram o fim da banda. Dentre as dez justificativas dadas pela banda, uma merece destaque: "Isto é o que bandas fazem (com algumas raras exceções, como o R.E.M., Metallica e os Stones). Estas bandas, contudo, são corporações multibilionárias. Você não acaba com uma banda dessas a não ser que o governo force você".
Essa afirmação já me diz que a banda acabou antes de ficar decadente. E olha que ainda nem ouvi o disco novo...
As demais razões (também interessantes) vocês encontram no site da banda: http://www.fuzzywuzzy.com

Anos 80 - O Resgate

Qualquer um percebe que virou febre, de uns anos pra cá, o revival (forçado ou não) da moda, música, gírias e comportamentos em geral dos anos 80. É um tal de escutar Trem da Alegria, reverenciar o Chaves, cantarolar as músicas da Xuxa e do Serginho Mallandro, lembrar do Fofão, dos Thundercats e por aí vai (vide comunidades do Orkut e baladas como a Trash 80's).

Alguns dizem ser fruto de um suposto surto de decadência criativa. Outros, alegam resgate genuíno de coisas boas vividas naquela década. Vou arriscar uma tese diferente.

Perceba: esse resgate é levantado por pessoas que foram crianças nos anos 80, que ficaram adolescentes nos anos 90 e agora, em 2004, passam pela trágica crise transitória da fase infanto-juvenil para a vida adulta.

É conhecido da psicologia o retorno ao estado infantil, à "felicidade" dos tempos de infância, à proteção familiar e coisa e tal em momentos de severa crise e conflito interno. É como se fosse um meio de defesa, um casulo onde a pessoa se sente protegida e amparada dos males do mundo (pesado isso, não?). Ataulfo Alves já chorou essas pitangas em música: "Eu daria tudo que tivesse/ pra voltar aos dias de criança/ Eu não sei pra que que a gente cresce/ se não sai da gente essa lembrança". Curioso que Kurt Cobain também já expressou o mesmo (de modo muito mais, digamos, visceral): "Throw down your umbilical noose/so i can climb right back".

Por outro lado, como já disse o mestre Goethe, há uma expressão genuína do infantil cujo sentido só se constitui em momento posterior à infância. Assim, não é de se admirar que essas coisas que a gente venerava na infância voltem a ter um sentido tão forte, após passado aquilo período de negação total da pré-adolescência e adolescência (seja sincero(a): você já vestiu uma camiseta do Iron Maiden ou do Sex Pistols e achou tudo ridículo, infantil e babaca).

Em outras palavras, junto com essa "necessidade" de volta à infância como forma de proteção, há um evidente movimento de negação da censura em relação aqueles gostos "peculiares" de criança que permaneceram negados, xingados e escondidos durante aqueles anos de auto-afirmação pela negação da infância, típicos da adolescência.

Dessa forma, um bando de coisa "trash" que você ouvia, assistia, comprava, comia, falava, vestia volta a ser legal, volta a ser fantástico, volta a ser "da hora", só pra usar uma gíria da época. E não só as coisas dos anos 80, mas as do começo dos 90 também.

Esse revival, então, não é um simples movimento oportunista ou um resgate forçado em virtude de crise criativa (pelo menos pra mim e, creio, pra maioria). Pelo contrário, é uma consequência natural do momento de vida em que se encontram os pobres coitados da geração 1980-1985 (pensa bem, quando você nasceu o Brasil ainda tava ditadura, o movimento hippie já era história, o comunismo já era lenda, os punks já tinham se vendido, a disco-music já tinha falido e o U2 tava começando!!!! Quanta merda!!!)

Então, foda-se quem tira sarro de você que gosta de Trem da Alegria, Balão Mágico, Ursinho Blau-Blau, Clube da Criança, Serginho Mallandro, Angélica, César Filho, Latino, Os Morenos, Copacabana Beat, Luan & Vanessa ("o seu nome eu escreviiii"), Angélica, Power Rangers, Jovens Guerreiros Tatuados de Beverly Hills, Mc Hammer ("can't touch this"), 4 Non Blondies, "Always" do Bon Jovi, a música do "Guarda-Costas" da Whitney Houston ("And iiiiiiiii"), Armação Ilimitada, Chaves, Chapolin, Cavalo de Fogo, Gato Felix, Atari 2.600, Fofão, a loira que saía do espelho, a boneca da Xuxa que tinha o diabo dentro.

Pelo menos, com esse texto, eu pude dar um guia de desculpas esfarrapadas que você pode usar quando te chamarem de tosco. Mas acreditem! É sério!

16.11.04

Robert Johnson - O Rei do Delta do Mississipi


Pacto com o demônio. Morte misteriosa aos 27 anos. Casos amorosos rápidos. Canções falando de alcoolismo e violência doméstica. Influente ao extremo. De quem estamos falando? Rolling Stones? Led Zeppelin? Black Sabbath? Não. O sujeito que responsável por toda essa postura “rock and roll” morreu três décadas antes de qualquer um desses grupos e deixou um legado muito maior. Trata-se de Robert Johnson que, apesar de possuir apenas 29 canções gravadas, criou um estilo único no blues e, consequentemente, no rock.

Nascido no Delta do Mississipi em 1911, entrou em contato com a gaita, o violão e o blues. Após perder a esposa, que tinha apenas 16 anos, e assistir a performance do bluesman Son House, Johnson resolveu que a vida no Mississipi como catador de algodão era pouco interessante. Assim, decidiu se tornar um bluesman, iniciando sua carreira nas casas de shows conhecidas como jook-joints.

Nesse ponto surge o mito Robert Johnson: no começo de sua carreira musical, Johnson não era diferente dos inúmeros bluesmen que afloravam no Mississipi. Entretanto, em pouquíssimo tempo, o rapaz desenvolveu uma técnica inigualável, o que levou ao nascimento da lenda de que essa habilidade fora ganha após um pacto com o diabo. A habilidade do sujeito era tamanha que, ao ouvir Johnson pela primeira vez, Keith Richards perguntou a Brian Jones quem era o outro guitarrista que estava na gravação. Já os mais céticos (e chatos) dizem que boa parte da habilidade de Johnson derivava de seus longos dedos, qualidadade que ajudaria, anos mais tarde, Jimi Hendrix.

Mas o próprio Johnson colaborou para a perpetuação da história em canções como Preachin´ Blues (Up Jumped the Devil), Cross Road Blues (dizem que o pacto foi selado em uma encruzilhada), Hell Hound on my Tale e Me and Satan Blues, com os singelos versos "Me and the devil, was walkin' side by side/Me and the devil, ooh, was walkin' side by side/And I'm goin' to beat my woman, until I get satisfied".

Mas nem só de satanismo e violência é feita a obra de Johnson. Como um genuíno bluesman, ele cantou sobre as dores do amor. A canção Drunken Hearted Man mistura culpa e alcoolismo com desilusão amorosa: "Now, I'm the drunken hearted man and sin was the cause of it all/I'm a drunken hearted man, and sin was the cause of it all/And the day that you get weak for no-good women, that's the day that you bound to fall". Além desta, vale citar o clássico Love in Vain, na qual um sujeito iletrado como Johnson transforma a cena de uma mulher indo embora de trem em algo extremamente poético: "When the train, it left the station, with two lights on behind/When the train, it left the station, with two lights on behind/Well, the blue light was my blues, and the red light was my mind/All my love's in vain".

Com tantas boas canções, Johnson foi convocado, em 1936, por um selo que lançava Race Records, discos destinados ao público negro, para a gravação de algumas canções. Todas foram gravadas em duas sessões em um quarto de hotel em pouquíssimo tempo, já que a idéia das gravadoras era extrair todo o repertório dos músicos para selecionar uma ou outra canção que seria lançada na forma de um compacto. Após a gravação, Johnson continuou a tocar em jook-joints, já que pouquíssimos negros conseguiam ganhar dinheiro com seus álbuns.

Em 1938, Jonh Hammond, um dos sujeitos mais importantes da cena do blues-jazz-folk americana (ele foi o responsável por encontrar talentos como Bessie Smith, Billie Holiday, Bob Dylan e Aretha Franklin), organizou o festival “From Spirituals to Swing”, no Carnegie Hall, convidando Johnson para o concerto. Contudo, após o convite, Hammond constatou que o músico havia falecido.

Segundo diz a lenda, o fato ocorreu quando o tinhoso resolveu cobrar sua dívida, tendo o bluesman morrido de joelhos e uivando para a Lua. Já os historiadores (também chatos) dizem que o músico fora envenenado por um marido ciumento, já que ele, além de bluesman, era um grande “conquistador”.

Johnson então caiu no ostracismo, sendo relembrado somente nos anos 60 por artistas como Rolling Stones, Animals, Yardbirds, John Mayal e Eric Clapton, os quais foram profundamente influenciados pelo blues americano.

E desde então Robert Johnson é tido como um dos maiores compositores norte-americanos, tanto em função de seu estilo seminal, quando por toda a lenda existente ao redor de seu nome.

O que ouvir?
"Robert Johnson –- The Complete Recordings"” -– Caixa com todas as 29 faixas do cantor. Apesar da qualidade ruim para os padrões atuais, é a melhor fonte para ouvir os originais do cantor.

Texto de Daniel Chiaretti.

10.11.04

Meu ouvido não é penico!

Assistindo ao acústico dos Engenheiros do Hawaii este final de semana retornei a uma constatação terrível (que julgo ser geral): o péssimo nível dos letristas das bandas de rock do país, falando aqui das bandas mais expostas na mídia.

Foi um sem-número de frases e rimas que me deixaram perplexos, coisas que buscam a poesia previsível, trocadilhos manjados e jogos de palavras babacas e sem qualquer correspondência com a expressão poética pretendida pelo “mestre” Humberto Gessinger.

Só para ilustrar minha raiva, observem:

"Por que será?/ Me diz, por que será/ que a gente cruza o rio atrás de água?"” (10.000 destinos)

"Ela para e fica ali parada/ Olha assim para o nada, Paraná/ Fica parecida, Paraguaia/ Pára-raios em dia de sol para mim/ Prenda minha parabólica, princesinha parabólica/ O pecado mora ao lado/ O paraíso/ paira no ar/ Pecados no paraíso” ..... “Paralelas que se cruzam em Belém do Pará/ Longe, longe, longe, aqui do lado/ Paradoxo nada nos separa/ Eu paro e fico aqui parado"” (Parabólica)

"O nosso amor é medieval/ É como uma pedra em um vidro de catedral"” (Sopa de letrinhas)

"Surfando Karmas & DNA/ não quero ser o que eu não sou/ eu não sou maior que o mar" (Surfando Karmas & DNA)

Sinceramente, não é necessário nem ser irônico. Dá uma olhada nessas letras. É capaz dele alegar até que opta pela poesia surreal! Surreal o caralho! Isso é um apanhado de metáforas ridículas, rimas muito mal elaboradas, paradoxos banais e assim vai.

O grande problema não é tanto escrever mal. Ninguém está exigindo que todas as bandas tenha um poeta por trás das guitarras. A grande questão é a postura de poeta, o menosprezo pela inteligência do público e a arrogância desses pretensos grandes letristas.

O Jota Quest é outro terror no quesito letras supostamente líricas. Vejamos:

"Eu quero ficar só/ mas comigo só eu não consigo/ Eu quero ficar junto/ mas sozinho só não é possível"” (Amor maior)

"Voe por todo o mar e volte aqui/ pro meu peito" (O vento)

"Pra que tanto telefonema/ se o homem inventou o avião/ pra você chegar mais rápido/ ao meu coração...A fome de amar é real/ não se traduz em fios/ Meu ouvido não ama/ apenas ouve os seus reclames"” (Tele-fome)

O que falar então do Ira! ("Você é meu sol/ um metro e sessenta e cinco de sol"”), do Capital Inicial ("Parei de pensar e comecei a sentir/ Nada como um dia após dia/ uma noite, um mês"), CPM22 ("Tanto faz o que vai rolar/ mas nunca espero voltar lá/Sempre tento me esconder/ para deixar de te ver") e Charlie Brown Jr. ("Acabei de ver mais um cachorro na estrada/ dor de cabeça, garganta ressecada")?

Poderia juntar trocentos posts comentando essas letras patéticas e, na sua maioria, feita às pressas só para finalizar e lançar o CD.

É claro que os grandes letristas são e sempre foram poucos, mas um mínimo de bom-senso e competência é o básico para poder se chamar alguém de artista e não mero tocador de músicas e alimentador da indústria fonográfica.

Mas o negócio não tem só o lado ruim. Vários artistas ainda salvam o nosso cancioneiro do rock, com letras bem sacadas, seja pelo lado lírico ou pelo cômico e non-sense. Grandes exemplos são Los Hermanos, Lobão, Bidê ou Balde, Gram, o extinto Video Hits, Nando Reis (com algumas ressalvas), o próprio Réu e Condenado comentado no post anterior, e vários outros.

Com certeza o sucesso dessas bandas de péssimos letristas está ligado ao desprezo do público em geral pelo texto, fixando seu gosto apenas no “embalo” da música, não dando a mínima para o que o vocalista está falando (ou berrando, ou vomitando). Azar da nossa cultura.

8.11.04

Eu sou tão mau!!!!!!

Isso vai mudar a vida de vocês. Isso tem que mudar a vida de vocês. A melhor banda que estava por existir acaba de existir e lançar seu primeiro CD. Só posso dizer uma coisa: GENIAIS! Escutem isso, comprem isso, se viciem nisso, propaguem isso, AMEM ISSO, VENEREM ISSO. Com vocês, RÉU E CONDENADO:

"Eu sou tão mau, que eu teria dois carros num país comunista
Eu sou tão mau, que o meu hobby em casa é brincar de legista
E você ainda quer ser o meu amor

você não entende que o caos e a danação
não podem em paz coexistir com a paixão
você me prende numa bolha de sabão (tchumblec tchumblim)
e eu me solto promovendo a destruição

eu sou tão mau, eu sou tão mau
que eu joguei seu voodoo num frasco de arnica
eu sou tão mau, eu sou tão mau
que eu vesti Hitler de Lilica Ripilica
e você ainda quer ser o meu amor

você me empresta o livro que ganhou no natal (do papai noel)
e eu picoto ele em mil pra fazer neve
da Agroquimia sei que Fosquima é o sal
pra engordar e dar saúde ele serve

eu sou tão mau, eu sou tão mau
que eu faço até piada com produtos agrícolas
eu sou tão mau, eu sou tão mau
que eu tenho o penteado dos Twisted Sisters
e você ainda quer ser o meu amor

você me ensina a disciplina oriental
e quando vira as costas corro e picho o muro
bati seu carro até dar perda total
e então gastei com pinga a grana do seguro

eu sou tão mau, eu sou tão mau
que eu pintei o inferno com tinta suvinil azul
eu sou tão mau, eu sou tão mau
ifz as palavras cruzadas no seu CD do Jethro Tull
e você ainda quer ser o meu amor!"

Vá numa banca mais próxima e compre junto com a revista OutraCoisa. Isso não é propaganda. É lavagem cerebral! COMPRE-COMPRE!

5.11.04

Acho que já ouvi isso! (Parte 2)

Continuando com o tema das músicas que se parecem com outras, aí vai nova listinha (largue de ser vagabundo, pegue no Kazaa e confira):

- "Todo carnaval tem seu fim" do Loser Manos é bem parecida com "Getchoo", do Weezer;

- "O mundo dá voltas" do CPM22 (credo!) é simplesmente a música "Bullion", do Millencollin;

- O Charlie Brown Jr. aumenta sua lista com três coincidências interessantes:

"Zóio de Lula" é igual ao Goldfinger em "My girlfriend's shower sucks"
"Proibida pra mim" é, na verdade, "Mr. Smile" do Mustard Plug
"Um lugar ao sol" lembra muito "Crush us all" da banda Seaweed

- Agora a seção Oasis:
"Cigarettes & Alcohol" é idêntica a "Get it on", do T-Rex;
"Morning Glory" tem o mesmo riff de "The One I Love", do R.E.M

- Parece que o Frejat quer superar Renato Russo no quesito canastrão-mor. Observe:

Frejat - Segredos : "Procuro um amor que seja bom pra mim/Vou procurar eu vou até o fim e eu vou tratá-la bem/Pra que ela não tenha medo quando começar a conhecer os meus segredos"

Neil Young - "Lookin' for a love/Lookin' for a love that's right for me/I don't know how long it's gonna be/But I hope I treat her kind and don't mess with her mind when she starts to see the darker side of me"

Incrível não?

- O Audioslave também tem suas complicações:
"Cochise" é tremendamente igual a "Whole Lotta Love", do Led Zeppelin
"Show me how to live" é roubada de "Sail Away", do Deep Purple (realmente igual)

-"Mr. Brightside", do Killers, que tem a introdução idêntica a "Camila, Camila", do Nenhum de Nós (não, não estou dizendo que foi plágio...);

- A Anastacia (quem?) sugou, copiou, roubou, plagiou "Lucky Man", do The Verve, em "Cowboys and Kisses" (olha o nome da música!);

- E Britney Spears, ou melhor, algum dos que faz as músicas dela, usou sem dó a batida de "In the Closet", do mestre Michael Jackson, pra fazer o hino sexy "I'm a slave for you". Copiando pedófilo? Bizarro hein... Aliás, o nome da música do Michael é bem interessante também...

Quem lembrar de mais algum faisfavor de me avisar!
Próximo texto é uma contribuição do Daniel Chiaretti. Se quizer mandar seu texto converse comigo pelo e-mail. Sugestões também são muito bem vindas. NÃO FIQUEM TÃO QUIETOS!

1.11.04

Acho que já ouvi isso!

Não existe uma definição em lei do que seja plágio musical (não que eu conheça). Existe um conceito assentado na prática que é plágio a cópia de, no mínimo, 8 compassos de uma canção, algo absolutamente técnico e de difícil apuração. Mas no dia-a-dia é fácil de se ouvir uma música que "lembre" outra, mesmo que vagamente, gerando a eterna discussão entre plágio e influência musical (incluindo-se aqui também a discussão sobre a criptoamnésia, sustentada na terapia regressiva).

Sinceramente eu não vou ficar discutindo conceitos jurídicos sobre o assunto, nem vou defender ou recriminar essas coisas que "lembram" outras, mas, realmente, é algo interessante e engraçado apontar alguns casos que envolvam músicas bastante conhecidas e episódios gritantes de apropriação sem o menor escrúpulo de letras, melodias, riffs ou o que for.

Um caso bem famoso é o de "My Sweet Lord" do George Harrison, que é muito, mas muito parecida com a música "He’s So Fine", do grupo The Chiffons. O negócio foi tão na cara que o ex-beatle foi condenado pela Justiça, apesar de sempre ter negado sua má-fé (plágio acidental?).

Na cara também o plágio de Rod Stewart, na canção "Do ya think i’m sexy?" em relação a "Taj Mahal" de Jorge Ben . O caso terminou com Rod Stewart, espertão, doando os direitos da música ao UNICEF.

Outro exemplo é o da música "Surfin’ USA" do Beach Boys. A melodia foi nitidamente roubada de "Sweet Little Sixteen", de Chuck Berry, a maior influência dos rockeiros da época.


The Doors também já fez disso: "Hello, I love you" tem uma semelhança interessante com "All day and all of the night", do Kinks. Mas não é pra tanto.

No Brasil, com certeza o copiador-mor (ou que tem mais "lembranças") é Renato Russo. A lista de músicas dele que "parecem" com outras é grande. O primeiro verso de "Será" é cópia assumida de "Say Hello Wave Goodbye", do Soft Cell ( é só comparar: "Take your hands off me/ I don't belong to you"). A letra e o título de "A canção do senhor da guerra" são chupados de "Masters of War", de Bob Dylan (apesar de não ser uma cópia grosseira, a temática e as referências são totalmente iguais, o que é de se estranhar, sendo Bob Dylan um dos ídolos de Russo). Continuando a lista de "influências" de Renato Russo, temos a música "Que país é esse?" que consegue, ao mesmo tempo, parecer "I don’t care" e "We want the airwaves", do Ramones, grande influência do cantor. Parece até implicância minha, mas tem mais um caso ainda. A música "Ainda é cedo" é uma mistura de "A Forest", do The Cure, com "A means to an end", do Joy Division. O espertinho ainda tentou se justificar em "Quase sem querer": "Sei que às vezes uso / Palavras repetidas / Mas quais são as palavras que nunca são ditas?". Sei, conta mais.

Frejat também ofereceu o ar de sua graça na carreira solo. A letra da música "Amor pra recomeçar" é simplesmente uma adaptação tosca do poema "Desejos" de Vitor Hugo. Confesso que não sei se ele creditou o uso no disco, mas desconfio seriamente que não. Mas um caso confirmadíssimo é o da música "Por Você" (argh!), do Barão Vermelho. Dá uma escutada em "If not for you" do mestre Bob Dylan (de novo ele, coitado!) e me fala depois. Ninguém mando Bob Dylan falar que sem o plágio não existiria rock.

Outra banda internacional que tem dois casos interessantes é o Led Zeppelin. Um dos maiores sucessos da banda, "Whole Lotta Love" parece bastante (bastante mesmo) com "You need love", de Muddy Waters. Mas o que choca muita gente é o fato de "Stairway to Heaven", o clássico dos clássicos, ser bastante "influenciada" por "Taurus", da banda Spirit, um grupo obscuro na época, mas admirado por Jimmy Page, o criador do riff clássico. Justiça seja feita, o Led Zeppelin também sofreu com essa "lembrança" na música "Still of the Night", na qual o Whitesnake simplesmente copiou a melodia do primeiro verso de "Black Dog".

Tem mais? Mas é claro! Antes de acabar com mitos dos indies (HÁ-HÁ-HÁ!) eu vou provocar os fãs do Metallica (será que algum fã do Metallica lê isso?). Desculpem meus queridos metaleiros do mal, mas "Enter Sandman" não é uma coisa tão fantástica assim. Por favor, ouçam "Tapping into the emotional void", da banda Excel (procura no Kazaa que você acha, vai!), depois comenta aí.

Antes dos indies (calma, calma) vou avisando que o Charlie Brown Jr. simplesmente pegou uma música do Black Train Jack ("Leap frog") e falou que era sua ("Hoje eu acordei feliz"). O negócio é realmente grave. A mesma coisa que o Supla fez com "Charada Brasileiro", chupada na cara de "White Power", do Screwdriver (o guitarrista do Holly Tree achou q ninguém fosse perceber...).

Agora os indies e alternativos em geral. Vamos por partes. O gênio Kurt Cobain furtou na cara dura o riff de "Eighties", do Killing Joke e fez "Come as you are" (ele mesmo confessou). O Foo Fighters, de "Você-Sabe-Quem", resolveu "homenagear" (que bonito!) o Blondie em "The One", apropriando-se sem dó de "Call me", da banda da loira. O bom moço Rivers Cuomo, do Weezer, não é tão bonzinho assim. Ele tem três momentos de "lembranças" (criptoamnésia?) interessantes: 1) "Undone" é bem parecidinha com "I Bleed" do Pixies (coisa feia! Indie copiando indie!); 2) "Hash Pipe" tem sua melodia furtada de "Kiss me Deadly", de Lita Ford; 3) "Dope Nose" é curiosamente igual a "All right now", do Free (esse é o mais na cara). Calma que tem mais dois.
O maior hit do Elastica ("Connection"), na verdade, é uma música do Wire ("Three Girl Rumba"). É de assustar. Finalmente, os Strokes cometeram um pecado em "Last Nite": ouça "American Girl", do Tom Petty e veja se eu to exagerando.

Casos curiosos, muito curiosos. Só pra não falarem que eu também to plagiando, esse texto teve base, além da minha própria memória (fantástica), vários sites da Internet que trataram do mesmo assunto, inclusive (sim, eu assumo!) a coluna do Lúcio Ribeiro, que já teve esse tema uma vez.